terça-feira, 5 de junho de 2007

Vizinhos

Na semana passada ouvi, no autocarro, uma senhora a combinar os pormenores de uma festa de/para os vizinhos.

A mulher irritava-me sobremaneira, pois parecia pertencer àquela estirpe de gente que, não contente com a função... erm, funcional dos telefonemas, tem sempre de acrescentar um bitaite ou um «gancho» qualquer, na esperança que o interlocutor o apanhe e ali mesmo parta para mais uns quantos minutos de conversa sem jeito nenhum. E dizia coisas como «break a leg!» num inglês macarrónico. E saudava os compinchas, às nove da manhã, em altos berros, dizendo coisas como «então vizinho, o sol já raiou?» ou «os balões são muitos, os pulmões cansam-se de encher tanto balão!».

Às tantas já preferia que aquilo fosse código para um qualquer atentado do que realmente tanta boa-vontade logo pela manhã (acho contra-natura). Mas lá fiquei a saber que, para a comezaina comunal, os nossos amigos já tinham «pão, alho laminado, louro e vinho». Espero que não se tenham esquecido de comprar os frangos ou as sardinhas ou qualquer coisa do género, para prato principal.

Na manhã seguinte, fiquei uma eternidade à espera do autocarro (era o dia da greve). Duas raparigas, também bem irritantes (funcionárias de um banco e donas daquele tipo de sotaque moderno-alfacinha que trunca o fim de certas palavras - chateadtz, moderadtz), falavam (mal) dos colegas ausentes e temas afins. A certa altura, comenta a mais interventiva (ie, chata):

«E ontem a festa da associação? Estavam todos lá no pátio... O meu pai até saiu de casa para não ter de ir.» (cá dos meus, portanto)

Entretanto, no fim-de-semana, li que dias antes se celebrara em Portugal o Dia dos Vizinhos e que em muitos locais, sobretudo na Grande Lisboa e no Grande Porto, se iriam realizar festas, jantaradas e confraternizações entre pessoas que partilham a mesma rua ou prédio. Tudo explicado, por fim.

Posto isto, eu adoro as minhas vizinhas do fundo do coração - e elas sabem. Mas adoro-as porque são minhas amigas, não porque vivem no mesmo edifício que eu. Sou tão contra esta noção do convívio forçado (festas com colegas de trabalho, jantares de curso, coisas assim) que até me custa explicar porquê. Mas acho que se percebe que, quando vivia na Ajuda, não gostaria de me sentar à mesma mesa das velhas que me acusavam a mim e às minhas companheiras de casa de mandarmos pensos higiénicos, cenouras e água preta (!) pela sanita abaixo.

4 comentários:

Nuno disse...

Idem aspas sobre os convívios forçados. Mas do trabalho podem ser bons, se houver muita e boa comida à pala!

Suz disse...

Eish! Estórias da Ajuda melher! Davam um spin off deste blog :D

menina-alice disse...

Dia dos Vizinhos!!! Vade retro!

Anne Martens disse...

Eu também gosto muito de ser tua vizinha, Gammita! :) Mas só porque me ofereces cogumelos salteados, falas comigo à janela e trocas mensagens no estendal!

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