segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Pluto & Prata, Lda.

O meu colega e amigo Paulo Rico desencaminhou-me; disse-me que devia escrever qualquer coisa, aqui neste tasco, sobre as minhas mais recentes aventuras de fim-de-semana, envolvendo cães de BD e metais muito preciosos. E como eu sou bem mandada...

Na semana das eleições, fui ao Porto ver Nuno Prata e, no dia seguinte, os Pluto a um novo bar da Invicta, bem ao fundinho da Rua da Alegria. Chama-se UpTown e deve levar tanta gente como a minha casa (o que me dá uma secreta esperança de, um dia, conseguir organizar um espectáculo no meu 4º direito. Adiante).

Na Sexta, saí do UpTown com um sorriso no rosto. O Nuno Prata mais seguro do que nunca, a apresentar, com a inspiração e o sossego necessários, aquelas músicas que, agora como sempre, quero ouvir em CD. Sim, o sonho tornou-se realidade, e se tudo correr bem, ainda este ano temos festa. Peixe e Kinörm, nomes que dispensam apresentação junto dos fãs de Ornatos e afins, juntaram-se ao concerto, nas últimas cinco músicas. Flashbackes aparte, foi um grande momento. Nunca mais o 'Guarda Bem O Teu Tesouro' me soará da mesma maneira!... E a alegria estampada na cara dos três músicos, o Kinörm a cantar as letras, o Peixe a brilhar como ele só, são imagens que acalentarei durante muito tempo.

No dia seguinte, o motim previsível. Pôr os Pluto a tocar num bar daquele não-tamanho equivale a meter o Rossio na Rua da Betesga, ou lá como é que se diz. À quarta música já não havia alinhamento (alguém o roubou); o microfone tinha o suporte fora do palco; a risota era pegada entre músicos e assistência... Para mais tarde recordar? As partes cantadas em uníssono pela assistência, a banda retida em palco no final do concerto e obrigada a repetir o 'Entre Nós', um 'Algo Teu' interpretado (dedicado?) pelo público, para a banda. Words cannot describe...

Esta Sexta-feira, fui conhecer o Cais da Oficina, um novo bar do... Montijo, que me pareceu aprazível qb para concertos rock. Perto de Lisboa e tal, estava cheio para receber mais um bom concerto (apesar das queixas de várias pessoas, que não conseguiram discernir com rigor os sons vindos do palco...). A sequência 'Convite-Prisão-Só Mais Um Começo' arrasou, e quando o Manuel Cruz larga a guitarra para atacar, quase literalmente, o palco e o público (ver a invariavelmente explosiva 'Lição de Adição' ou os inéditos lindivinais 'Não Há Quadrado Que Não Role' e 'Eu Podia'), é o fim do mundo. Não que não gostemos de te ouvir a tocar, Manel, mas quando estás solto, despertas o pior - ou será o melhor? - que há em cada um dos fãs. Bem, mas para isso há os Supernada...

O momento que gostava de ter fotografado: o final da 'Prisão', o sorriso e o abraço entre as duas guitarras, o calor («que é puro, que é bom, só acontece quando nada é claro...»).

Não sei se era isto que querias, Rico. Mas é isto que me aquece a alma.

Cheers!...

PS - Só o alinhamento podia mudar um bocadinho... mas suponho que a banda tenha mais que fazer do que pensar nos fãs que correm o país para os ver em repeat mode, eh eh!

Enganei-me

Afinal, gosto do "Mala Educación".



Para desfazer este e outros equívocos, ou simplesmente ver filmes, bons filmes, pela módica quantia de 2,5€, há um ciclo de cinema vintage de 2004 no Cinema Ávila, em Lisboa, até ao final de Março.

Divirtam-se...


Acrescento: o Público tem aqui a lista completa de películas e horários.

Y viva la España

Não assisti à cerimónia de entrega dos Óscares de Hollywood, mas irritam-me certas fórmulas simplistas e "dissolventes" aplicadas por quem decide as coisas... como se os «originais» ferissem muitas sensibilidades, e se escolha assim presentear os espectadores com versões mais básicas, mais inócuas, mais «populares», e isto no pior sentido.

Adorei o filme "Motorcycle Diaries", e na ressaca dessa minha adoração, fui a correr comprar a banda-sonora. Numa altura em que compro poucos discos - apesar de ouvir cada vez mais - isto é significativo. E mais significativo ainda é que, ao contrário do que muitas vezes sucede com as bandas-sonoras, esta caiu-me no goto sem necessidade de ter imagens a acompanhar as músicas... ou, se calhar, essas imagens estavam já lá, guardadas em mim, e são facilmente accionáveis pelo poder da música.

Ontem, nos Óscares, o valor da banda-sonora de "Motorcyle Diaries" foi reconhecido, com uma interpretação de "Al Otro Lado el Río", ao vivo do famoso Kodak Theatre. A música mereceu, também, o prémio de Melhor Canção. Há temas de que gosto mais, no disco, mas não é isso que está em causa... antes que, a interpretar a canção, estiveram... Santana (talvez por ter nascido no México?) e Antonio Banderas.

Antonio Banderas? Porquê?

Não só não é cantor, como não entra, no papel de actor, no filme.

Porque o terão escolhido, então? Fico com a ideia que, para a Academia, um actor espanhol, desde que ultra-conhecido (e Banderas é-o), é o ideal para dar voz a uma música em castelhano, de um filme realizado por um brasileiro, protagonizado por um mexicano, sobre um gajo nascido na Argentina.

Não sei se o castelhano é a pátria de todos os hispânicos do mundo, mas pessoalmente, confesso-me algo desgostosa com estas reduções ao denominador mínimo comum.

Será que se o tema dos Três Tristes Tigres para o filme português do ano passado, "Noite Escura", estivesse nomeado, iríamos ter a cantá-lo, em directo para todo o mundo, o Joaquim d'Almeida?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

Me neither

Macacos me mordam se percebo esta histeria colectiva em redor do concerto dos U2 em Alvalade. OK, é uma banda que vai trazer a Portugal um considerável aparato pirotécnico; é uma banda que consegue a proeza de fazer o pleno das rádios, tocando nas assumidamente nostálgicas e nas pretendentes a radicais; é uma banda de que, como dizia a Mary-John há atrasado, toda a gente pode gostar sem surpreender, nem ofender, ninguém.

E, que isto fique claro, não escrevo estas linhas a pensar nos fãs de velha - ou nova - guarda, que esperam com emoção e expectativa o reencontro (ou o primeiro encontro, até) com a banda que lhes preenche os ouvidos, a alma, todas as medidas. Ou seja, isto não é para ti, Susaninha...

Mas confesso que me custa a perceber. Pessoas que vivem de costas voltadas para a música ficam eléctricas quando «um grande nome» (como eu detesto estas expressões) decide fazer a visita da praxe ao nosso quintal. Nem que tenham de desembolsar vinte notas de conto (sim, que piada tem dizer «10 notas de 10 euros»?), há que acorrer ao local do culto e prestar vassalagem, cruzando os dedos para que as músicas escolhidas e tocadas sejam aquelas que nos fazem companhia inabalável em qualquer estação de rádio, desde... desde sempre?

Não pretendo que todos estejam atentos à programação da ZdB, do Mercedes ou até da Aula Magna, e desejo muito sinceramente que o concerto de Alvalade não defraude as expectativas de ninguém. Mas para mim este fenómeno em redor dos bilhetes, da caixinha que a promotora gosta sempre de fazer, como se não lhe interessasse divulgar o seu próprio negócio, vai muito além da música. Além, ou ao lado. Até a minha irmã, que não compra discos, não saca canções da Net, não vai nunca a concertos, me pergunta se eu lhe posso arranjar bilhetes.

Será a esperança de aparecer numa qualquer revista social a falar mais alto? Ou a ideia de ver alguém que já apertou a mão ao Papa e respirou os mesmos micróbios que o Bush é assim tão excitante?




E a despropósito, dou razão ao Gonçalo Frota, do Blitz. Músicos como o Bernardo Sassetti nem o Fórum Lisboa conseguem encher...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

Tirem Cristo da Cruz

Nasci em Gaia, mais precisamente na popular freguesia de Mafamude (experimentem dizer a alguém que é essa a vossa naturalidade, mesmo que seja mentira, e constatem a reacção). Vivo em Lisboa faz no Outono nove anos e pode-se dizer que já me habituei - que remédio! - e, heresia, até gosto. Depois de um atribulado primeiro ano em Benfica, mudei-de de armas e bagagens para a Ajuda, para ficar perto da faculdade onde estudava. A segunda mudança deu-se daí para a Boa Hora, uma localidade que é metade Ajuda, metade Alcântara, e conjura assim a metade velha, tacanha e rezingona com a metade jovem, aberta e borgueira daquela região.

Na Boa Hora, não há quem não proteste, por tudo e por nada. Parece um desporto. Procurei no Google por imagens da Boa Hora e apareceu-me isto:



Reconheço o sítio (é ao fundo da minha rua) mas não o mural, que entretanto deve ter sido apagado do mapa, e daquela parede... Mas dá para ter uma ideia do espírito da zona.

Hoje de manhã, e vocês sabem que quando eu falo em manhã, falo em antes das 07h00, reparei que as paragens da Boa Hora tinham novos atractivos. Folhas A4, impressas em casa, que alguém andou a colar, com o intuito de:

1) revoltar o povo contra a Carris («quem é que eles julgam que eles são? Transportes públicos? Transportes públicos grátis, já!! O povo não tem de pagar para trabalhar! A Carris não pode mandar no povo!»)

2) tirar Cristo da cruz. Esta prosa decorei mesmo, tinha de a partilhar, aqui, com a merecida precisão.

«Tirem Cristo da Cruz!

Ele não merece sofrer tantos anos!

Não o lamentem! Sigam-no e libertem-no!»


Anseio pelos próximos capítulos. Se um dia houver uma nova revolução em Portugal, ela vai começar na Ajuda, facção Boa Hora, tenho a certeza.

Boa semana!...

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

Porto, Rio, Barco

Ainda na ressaca da minha segunda visita ao Porto Rio, esse barco no Douro plantado e de música repleto, deixo-vos com uma pequena curiosidade, (literalmente) anexa ao assunto principal.

Ia eu com a minha room mate a atravessar a mini-ponte que liga o passeio à embarcação, quando reparo num daqueles barquinhos de pescadores, ao melhor género casca de noz, e no qual parecem caber duas pernas e dois remos, na melhor das hipóteses.

Regra geral, os donos dão a estes pequenos botes nomes que pedem protecção divina (santo isto, santo aqueloutro), por motivos que se adivinham e compreendem. Outros, baptizam o barco com o nome dos filhos, da mulher, da amante. Mas não, estas tabuazinhas de meia leca, fragilmente baloiçando na maré baixa, chamavam-se...

«MINI TITANIC»

Boa semana a todos!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

E houve mesmo!

Os Supernada convenceram-me, entretiveram-me, deixaram-me a querer mais.

Pediram-me que contasse porquê num blog vizinho - vão lá dar uma olhadela e digam coisas... aqui ou acolá.

Boa semana!

A estreia dos Supernada

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Sonhos em 2005

Ontem sonhei com o José Castelo Branco. Rezo a Deus para que tenha sido a primeira e a última vez. Estava sentada num café do Monumental, onde estivera naquela noite, e na vida real, com o meu amigo do beautiful poses, quando reparo que o JCB se senta ao meu lado. Estava com um amigo a folhear um jornal e pôs-se a comentar uma notícia sobre... o Figo, de título supostamente espirituoso (era «Figo na boca», ou «na boca de Figo», qualquer coisa assim). Dizia que era um escândalo, que este país era isto e aqueloutro.

Da noite de hoje tenho memórias mais difusas. Mas sei que, microsegundos antes de acordar, estava a sonhar que lia (com muito interesse e curiosidade!) um anúncio que prometia o seguinte:

«Medicinal barato para sorver dias de trabalho»

sábado, 18 de dezembro de 2004

Traduções

Long time, no sofa.

Para me redimir, deixo-vos com uma breve.

Na passada semana, estava eu enroscada num sofá a norte, quando leio, numa sitcom que passava na 2:, a seguinte tradução:

«Up yours!», diz a personagem brit.

«Vai comer ranho!», legenda o criativo tradutor.

Será que o senhor achou que o «yours» era... um nariz?

Isto já para não dizer que nem eu, batata asneirenta qb, conheço o insulto «ir comer ranho».

sábado, 30 de outubro de 2004

Marcelo Rebelo de Sousa, por Zézé Camilo

Uma das regras da comunicação é que, por mais unívocas, claras e transparentes que sejam as palavras de que nos servimos para transmitir uma mensagem, cada um dos receptores vai interpretá-la de acordo com os seus conhecimentos, os seus pré-conceitos, a sua moldura mental, por assim dizer.

Na passada semana, Zézé Camilo Rufino, sobrinho de uma das minhas maiores amigas, emitiu a sua opinião sobre o caso Marcelo Rebelo de Sousa vs TVI. No telejornal, falava-se em «cabalas contra o governo...», e o petiz, com seis anos de idade e um fortíssimo sotaque nortenho, indignou-se:

«Cabalas?!... ÉGUAS!»

Bom fim-de-semana a todos!

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Vale sempre a pena

Até estou a tremer... parece que ganhei o Euromilhões (bem, nesse caso já estaria a caminho do hospital!). Acabo de saber que o Nuno Prata, cujo mérito e canções eu tanto tenho apregoado, vai fazer a primeira parte do Josh Rouse, nos concertos de Dezembro!

Desculpem-me a falta de elaboração deste post, mas às vezes sabe mesmo, mesmo bem ver que o que é bom acaba por ser notado...

Imaginem agora um grande sorriso, e é como eu estou.

Falta dizer que já há bastantes anos sou, também, fã do Josh Rouse, pelo que este double bill está diametralmente oposto, numa escala que vai do Bem ao Mal, àquele match made in hell que é a Anastacia e os Fingertips, um destes dias no Atlântico.

As datas da grande oportunidade podem ser consultadas aqui.

Vão, se quiserem ouvir (e assobiar) ao vivo coisas como esta:

«Nada é pior do que não te ter
e ver que outros braços
te dispensam beijos falsos, fáceis rimas de prazer

Nada é tão mau quanto não te ter
e saber que o teu riso
é o aviso que de ti preciso para viver»


sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Insónias

Voltei a ter uma insónia. A gaja que adormecia em poucos segundos não pode ficar a trabalhar até tarde, que lhe passa o sono - isto é, o corpo pede descanso, mas a cabeça não pára, impedindo-me de adormecer.

Esta semana, depois do concerto dos Magnetic Fields, fiquei até às cinco da matina a revolver-me na cama, puxando lençóis, acendendo e apagando a luz repetidas vezes, e de uma forma geral amaldiçoando a minha sorte.

Como sempre nestas ocasiões, só consegui pregar olho depois de rever mentalmente, 20 vezes, o que fizera naquele dia e o que me esperava no próximo, e de começar a considerar usar as horas-extra em que estou a pé para pintar um fresco ou construir uma catedral.

No meio da torrente de ideias, esta voltou a assolar-me: a coisa que mais me atrofia em não conseguir dormir, estou em crer, não é o cansaço (eu ando sempre cansada, a minha mãe diz que eu até já nasci assim) nem o facto de estar a abrir a porta às olheiras (que habitam na minha cara há mais de dez anos, quer durma muito, pouco, ou faça uma directa).

O que me chateia é não ter ninguém com quem falar.

Acho que vou pôr anúncio no Jornal Ocasião:

«Procura-se profissional da área da panificação, segurança nocturna ou recolha do lixo. Para troca de sms aquando de eventuais insónias. E nada mais.»

Bom fim-de-semana!...

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Outra vez Saint Nick

Lembram-se de há tempos vos contar que a leitura do "31 Songs" em plena paragem de autocarro me rendera fãs inesperados? Pois bem, além desses dissabores, retive alguma coisa do livro. A sério. Há algo na prosa de Nick Hornby que faz com que, enquanto ando a ler alguma das suas obras, comece a pensar como o homem, integrando expressões e atitudes das personagens no meu dia-a-dia. Isto pode parecer estranho, mas 1) não me acontece com todos os escritores 2) eu sou estranha.

Vem isto a propósito de um capítulo do "31 Songs" em que Nick Hornby fala da música de um grupo obscuro, que não deixou de ser obscuro por ele ter falado nele, ou lembrar-me-ia do seu nome, agora. Seja como for. Queria o senhor contar que a banda era de uns amigos, ou dos amigos de uns amigos, que para o efeito vai dar ao mesmo. E que por isso, e por vir com recomendação de outros amigos, lhe tinha prestado muita atenção, acabando por se apaixonar pela música. Diz Nick Hornby que devíamos ser amigos de toda a gente, para evitar os discos ouvidos à pressa (e logo postos de lado), e até mesmo aquelas rodelas compradas num impulso e que mal acabam por sair da caixa.

Lembrei-me disto por causa do disco que ando a ouvir há um ror de dias. "Bom Dia", dos Pluto. Como se devem lembrar, à conta da choraminguice derramada uns posts abaixo, esta é a nova banda do Manuel Cruz e do Peixe, espinha dorsal dos Ornatos Violeta.



Andava a evitar ouvir o disco. Tinha medo de ficar desiludida. (Lembrem-se, eu sou estranha). Mas graças ao Nuno Prata (ex-baixista dos Ornatos, que me disse maravilhas do "Bom Dia"), tomei coragem. Cá vai disto. Pronto. Ouvi. E agora?

Agora os Pluto não são os Ornatos, mas isso já eu sabia por tê-los visto ao vivo várias vezes. As letras e a voz só podiam vir do Manuel Cruz (embora os textos registem algumas diferenças, certamente para melhor adequação ao novo registo sonoro. E mais não digo se não ainda ficam a pensar que eu fiz um trabalho para a faculdade sobre as letras do homem, e tal).

Se este "Bom Dia" não fosse dito por quem é, talvez não chegasse à segunda audição.

Punha o disco de parte com aquele esgar de «não gosto lá muito» e passava ao próximo, ou voltava aos habituées.

Mas como tenho o MC e o Peixe em altíssima estima, insisti. Primeiro, ouvindo aquelas que me caíram mais no goto (ainda bem que não estamos a falar de um vinil, ou já o teria riscado na faixa 12), depois, pouco a pouco, alastrando a curiosidade ao resto do disco.

Estou viciada, constatei pouco tempo depois. Já me apetece ouvir o disco no autocarro, em altos berros logo pela manhã, decorar letras, ver concertos, assustar os vizinhos com aquelas guitarradas e delírios quase psicadélicos.

Ponho-me assim a pensar que quem tem razão é o Nick Hornby; e a imaginar que outros discos ando a perder, por não olhar para eles como se tivessem sido feitos por amigos meus.

A propósito de amigos: a vida, infelizmente, não sorri da mesma maneira a toda a gente, e enquanto os Pluto se passeiam, graças a Deus, por media avulsos, o Nuno Prata continua sem perspectivas de futuro... Perdoem-me por acreditar, mas digo que está ali um dos melhores autores de canções dos últimos anos, escritas com a mão no coração e um respeito carinhoso, engenhoso, pela Língua Portuguesa.

Se quiserem ouvir, chateiem-me. A sério, mando maqueta sem encargo.

Boa semana!...

sábado, 25 de setembro de 2004

Casa

O vento não sopra em lado nenhum como no quintal (selvático, amazónico, caótico) da minha Avó.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

Perigos da leitura

No começo desta semana, estava na paragem do 42 a devorar as últimas páginas do "How To Be Good", quando ouço alguém a interpelar-me, gentilmente:

«Excuse me...»

Ora, a Boa Hora não é propriamente local turístico que se apresente, pelo que desconfiei da abordagem estrangeirada. Olhei pelo canto do olho e vejo um senhor com ar de quem espera o 60 (destino: Martim Moniz), chapéu e sorriso amável. Acalentei a esperança de que quisesse pedir alguma informação de jeito.

«Do you speak english?», avançou o homem, sem que eu lhe desse trela para tal.

Comecei a topar-lhe a pinta - queria conversa, e eu queria acabar o livro. Armei-me em mula e fiz que não com a cabeça. Acompanhei com um sorriso.

«Why are you reading a book in English, then?», apontou com argúcia o senhor do chapéu.

Fuck, parece-me legítimo dizer.

Sonhos

Ontem tive uma insónia do tamanho de uma casa. Tendo em consideração que nunca demoro mais de cinco minutos (ou mesmo segundos) para adormecer, posso até dizer que tive a insónia da minha vida. Estive mais de duas horas às voltas na cama, a olhar para o tecto, a ouvir música e a ler um artigo sobre o "Verão Azul", na 365.

Às tantas, lembrei-me que tinha lido numa revista que o remédio, nestas ocasiões, é pensar no que fizemos naquele dia, ou no que vamos fazer no dia a seguir (estes conceitos confundem-se, a partir de certa altura).

Não resultou: fiquei ansiosa a pensar nas minhas tarefinhas pré-fim-de-semana e não me deu sono nenhum.

Comecei então a lembrar-me de alguns sonhos que tenho tido ultimamente, e que àquela hora, no silêncio escuro do meu quarto quente comó raio, se tornaram mais próximos.

Na última semana, o meu subconsciente esteve em modo temático, recuperando duas paixões da minha longínqua juventude.

À falta de um psicanalista, partilho convosco...

Sonho 1

Estava a passear com os meus pais quando, atrás de mim, um rapaz (uma das tais paixonetas acerca das quais nunca fiz nada que se apresentasse) me começa a chamar. À primeira, parecia não o reconhecer. O mistério resolveu-se (bem, mais ou menos) quando o moço se re-apresentou: «Então, não te lembras de mim! Sou o rapaz que conheceste no Minipreço!».

Esta é uma mentira ignóbil. Nunca conheci ninguém no Minipreço, muito menos aquele holandês, que como convém à sua nacionalidade, me foi apresentado em Amesterdão.

Dei uma volta de honra à praceta com o rapaz, e quando dei por mim já se tinha evaporado. Tão fugaz como na realidade, portanto (esqueçamos a parte do Minipreço, por momentos). Valeu pela recordação.

Sonho 2

Ia de carro com o meu real e estimado batato, em Gaia. Passo em frente à biblioteca anexa ao liceu e vejo, no meio de um grupo de rapaziada, o desgraçado com quem eu muito engraçava, na minha adolescência. Estava igual a si mesmo (calções feitos a partir de calças cortadas, botas grunge/trolha, aquela coisa). Fiquei contentíssima: «Olha, olha, está igual!!! Não mudou nada», exultei.

Na vida real, não o vejo há anos, se bem que me constou que trabalha agora numa famosa cadeia de lojas de música, que não a Valentim de Carvalho.

No mesmo sonho, o Kiko, meu primeiro e saudoso cão, ressuscitava. A emoção era grande. E o canito, cruzamento entre rafeirote e cão de água, aparecia agora de olhos azuis e pijama a condizer.

Bom fim-de-semana!...

domingo, 5 de setembro de 2004

Sofá Gold - Dempsey & Makepeace

Num Domingo quase Outonal, com bastante coisa para fazer mas preguiça em iguais doses, lembrei-me de recorrer ao Google para encontrar informação actualizada sobre o programa que mais alegrias me deu em toda a vida (sim, estou em semana nostálgica).

A missão era arriscada, eu sei: o que pode ser mais deprimente que encontrar os nossos ídolos velhos e caquéticos, numa qualquer prateleira dourada (ou nem isso) da especialidade em que em tempos brilharam?

No entanto, e graças a outros maluquinhos como eu, vi os meus propósitos cumpridos sem apanhar qualquer decepção. Eles vivem! Eles estão bem!! E eles tiveram um filho, ao qual deram um dos meus nomes favoritos: Alexander.

Falo, como é bom de ver, dos protagonistas da lindivinal série Dempsey & Makepeace, que em meados da década de 80 me dava uma razão extra para ficar acordada no sofá (na altura, de outra cor), à espera do melhor programa da televisão portuguesa e arredores.

Não me lembro, ao contrário da maior parte das minhas contemporâneas, da Candy Can, mas tenho bem presente a tarde em que persuadi a minha mãe a passar-me uma justificação de falta, para poder sair das aulas a meio da tarde e ver o Dempsey & Makepeace no "Agora Escolha". Andava na quarta classe.

Hoje, é possível reviver todos aqueles grandes episódios, grandes cenários foggy e brit, e grandes penteados dos anos 80, graças à edição da série em DVD. Recebi a primeira caixa pelo aniversário e desde então que tem sido um fartote de memórias e ansiedades: estarão bem? Ainda serão actores? Terão entrado em filmes da TVI?

Através de uma amiga, verdadeira enciclopédia de cinema e televisão, soube que, tristemente, a resposta a esta última pergunta é «sim, uns quantos». Mas também que Michael Brandon (verdadeiro nome, Feldman) e Glynis Barber (Van Der Reit) casaram pouco depois do final da série, têm um menino e, o que é mais importante, ostentam hoje em dia visuais que em nada envergonham os verdadeiros paradigmas da moda que eram quando eu tinha seis anos.

Fiquei feliz.

Ele:



Ela:



Ele mais ela:



quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Momentos olímpicos

Agora que os jogos acabaram e o tempo (inclusivamente o meteorológico) convida à reflexão, deixo aqui no tasco a memória de um dos melhores momentos das últimas Olimpíadas.

O atleta português que não brilhou e, depois, acusou a federação de o ter deixado correr com sapatilhas rotas, arrependeu-se e, no aeroporto, já dizia que, afinal, a culpa tinha sido dele. A Federação até lhe podia ter dado umas sapatilhas novas, ele é que não soube «a quem se dirigir para pedi-las» (bem o compreendo; em qualquer empresa de média dimensão, saber a quem pedir o quê é, muitas vezes, um enigma diabólico).

Pergunta-lhe então o jornalista: «Está, portanto, a fazer um mea culpa

Responde o homem das sapatilhas rotas: «Hum... não, é culpa completa, mesmo. Foi toda minha!»

(Eruditos dum raio, estes jornalistas que abordam atletas que correm quase descalços com locuções latinas!)

Entretanto, outro dia sonhei que era metade de uma equipa olímpica de ginástica blues-rock, tendo realizado uma prova invejável, ainda que improvável, de corrida, ciclismo, malabarismos e música ao lado do Paulo Furtado, aka Legendary Tiger Man.



O júri não sabia muito bem o que achar da nossa pretação, mas nós sabíamos que tínhamos estado bem.

Eu até tinha um fato-de-treino prateado, e, no final, perguntava ao homem dos Wray Gunn se ele não queria que eu lhe cozinhasse alguma coisa, já que ao olhar para o que tinha no frigorífico, achei que bolos e suminhos não era ementa rock que se apresentasse.

Desculpa, Petra.

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