terça-feira, 17 de outubro de 2006

Mais Queijo

Esta noite, na Química. É ouvir! Diz-que vamos dar bilhetes para o teatro e tudo...

Mais frases

Há, quer-me parecer, um vagabundo / maluco residente na minha rua. É um senhor de longas rastas, que outro dia vi a falar amistosamente com uma vizinha. Suponho, assim, que seja inofensivo.

Ontem ao final da tarde, ia eu ligeirinha a subir a rua, tentando escapar à chuva, quando o vejo muito entretido a mexer num contentor cheio de entulho. Uns papéis pareciam chamar-lhe especialmente a atenção. Ao ver-me, achou por bem justificar o seu comportamento:

«Não consigo encontrar um bilhete postal em condições para juntar à minha colecção!! Possa - será possível?!»

Continuei a caminhar bem depressa, para evitar os pingos cada vez mais grossos e também para que o homem não percebesse que eu estava prestes a escangalhar-me a rir.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Parabéns!

Foram, e espero que continuem a ser, centenas de horas de prazer, em disco e ao vivo. Ornatos, Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido, Ornatos Ornatos Ornatos - ou uma vida (quase 10 anos é uma vida, não é?) a ouvir e adorar o que sai da cabeça do Manel Cruz. Além da música e da prosa, há os bonecos (ilustração), a bê dê, a graça e, muito resumidamente, o brilho que emana do senhor. O Manel faz (32) anos hoje e o Sofá Verde manda-lhe os seus sentidos parabéns. Com muito carinho.



Foto d' O Puto do costume (que também está de parabéns, mas por outras razões. Lá iremos, hoje o dia é violeta).




( e numa segunda-feira cheia de chuva e caras feias, nada mais justo que recordar a letra do «Dia Mau» e questionar: quem consegue encaixar numa canção pop de três minutos e qualquer coisa a frase - sim, é uma frase - «mas vendo bem não houve à luz do dia quem não tenha provado o travo amargo da melancolia», não merece tudo? Eu se calhar sou suspeita, mas acho que sim. )

Sonhos

Na semana passada sonhei que bebia, julgando tratar-se de iogurte líquido, um bom bocado de lixívia. Só me apercebi do equívoco ao olhar para a garrafa (bem colorida e assim propícia ao engano). Fiquei aflita - não tanto pelos efeitos da lixívia nas minhas entranhas, mas porque de repente era criança outra vez e tinha de ir contar ao meu pai o que fizera. Aproximei-me a medo, na casa antiga de Santo Ovídio onde hoje só deve haver ratos, e pedi:

«Oh pai, podias levar-me ao hospital, para me fazerem uma lavagem ao estômago?»

O meu pai, contrariamente ao que esperava, não explodiu de raiva e aflição. Olhou para mim e, com condescendência, disse: «Ai, e agora já queimaste as cordas vocais».

Eu levei a mão ao pescoço e concordei: «Pois queimei». Acordei com a garganta inflamada.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Semana constipada e consgestionada

Tem sido uma semana cheia de compromissos profissionais e espirros insistentes.

Ainda assim, basta-me andar pelos habituais e glamourosos locais para compilar umas bonitas frases...

Ontem, um taxista explicou-me a praga das moscas (andam por todo o lado e, outro dia, creio que entraram mesmo na boca de um colega. É nojento, mas verdade). Segue a explicação do senhor:

«Elas andam moles, pousam em todo o lado.»

( até na comida do restaurante de um amigo onde o homem vai há tantos anos - o que se há-de fazer? Eles têm lá «aquelas coisas para matar as moscas, mas elas não vão lá acima morrer»... )

Hoje, na paragem do 29, umas velhotas queixavam-se da nova "Rede 7" da Carris. Quando se lhes esgotaram as queixas, diz uma para a outra:

«O que é que eles disseram hoje às cinco da manhã que eu me fartei de resmungar?»

-> nota mental: esta gente ouve rádio às cinco da manhã. E resmunga.

«Deve ter sido aquilo da taxa de internamento!», alvitrou a outra.

«Ah, pois foi! Cinco euros por dia!... Haviam de me mandar a mim! Eu dizia-lhes logo: não pago!! Se nem pró comer me chega!!»

Na estação de comboios de Algés, os vendedores de trapos discutiam (fiquei com a impressão, não confirmada, que o tema era a intervenção da polícia no seu negócio).

«... mas deixa, que Deus não dorme e castiga! Deus castiga!...»

Antes, no 29, um velhote todo torto entrou no autocarro levando à comoção generalizada. Acabou por ser uma mulherzinha, também ela pouco jovem, a levantar-se e ceder o seu lugar - não sem antes sem mandar a boquinha: «Mas há aqui pessoas mais novas!...».

O jovem mais próximo picou-se e respondeu. «Se calhar, essas pessoas mais novas estão mal-dispostas, não é?!».

A mulher não esperava resposta, notou-se. Limitou-se a olhar para ele de soslaio e dizer: «Esteja calado, que eu não falei para si».

Lá diz a minha amiga Cibele: fosse tão fácil comprar armas em Portugal como é nos EUA, e também teríamos os nossos assassinos em série.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Extra Cheese

Esta noite, na Química FM (105.4). Tudo (ou nada) pode acontecer.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Adeus, Hard Club

Neste final de ano, a notícia com "N" grande, no que toca ao encerramento de salas míticas, parecia ser a do CBGB's. E continua a ser.

Mas pessoalmente, toca-me bem mais de perto o fecho do Hard Club. Foi lá que consolidei o enamoramento com os Ornatos (7 de Dezembro de 1998 - ainda hoje a data me soa especial) ou dei asas às pancas Pattonianas.

Fico feliz, apenas, por quem escreveu o texto no Correio da Manhã ter noção do que foi o Hard Club ao longo da última década...

«Por ali passaram homens de libido à flor da pele, como Manuel Cruz, dos Ornatos Violeta, o ‘senhor caleidoscópio’ David Byrne, Mick Taylor a cair. Os Blasted Mechanism como se penetrassem em ‘florestas virgens’ e João Gordo, dos Ratos de Porão, qual ‘Obélix urbano on-acid e ataque constante’ deitando fumo pela cabeça em ‘carniceria tropical’»


Não era, claramente, um espaço perfeito. Ainda me lembro das chincanas para lá chegar - para quem nunca lá foi, o Hard Club fica a escassos metros do Rio Douro, o que tanto nos proporciona uma vista soberba como mui complicados acessos. Quando havia cheias ou simples chuvadas a coisa tornava-se ainda mais crítica. E nos últimos anos quase não fui lá, graças à viragem quase total da programação para as festas drum 'n' bass e os concertos de metal.

Durante quase 10 anos, soube bem sentir que uma das maiores (ou pelo menos, das melhores) salas de espectáculos do país era da mesma terra que eu. Dificilmente encontrei outro recinto com as mesmas condições (sonoras, de visibilidade para o palco) e o mesmo carisma (essa coisa que não se explica mas que se sente: nas paredes de granito, nas varandas para o Douro, nos rostos das pessoas). Era um verdadeiro clube. E sempre que penso em noites memoráveis no Hard Club, continua a vir-me à memória a mesma imagem: a de uma rapariga que não conheço, a dançar sozinha, com um sorriso de orelha a orelha, enquanto Manel Cruz, há oito anos, cantava «eu quero ver a lua a ver-me a andar, a ver-me a dançar». São coisas...

Listas

Ontem li, numa dessas revistas de Domingo, que perante a avalanche de informação a que somos sujeitos todos os dias, a solução parece ser... fazer listas.

Nos EUA, dizia o artigo, tem crescido em massa a venda de agendas com espaço para fazer listas.

Há qualquer coisa aqui que não bate certo. Já nem me vou debruçar sobre a real utilidade das listas (a meu ver até podem ajudar à frustração, por no final do dia, ou do mês, ser mais claro e evidente o número de coisas que ficou por fazer).

O que me intriga é: quem quer fazer uma lista, precisa mesmo de comprar uma agenda especial com espaço reservado às ditas?

«No meu tempo», as listas faziam-se nas costas de um talão de supermercado, numa senha de autocarro ou, em caso de extrema necessidade, na palma da mão.

Quem precisar de uma agenda especial para fazer uma lista, tem encontrado o seu problema - que não será falta de tempo, nem de organização, mas sim de agilidade...

Posto isto, confesso que tenho dezenas largas de blocos de notas, meticulosamente arrumados numa divisória da estante do Gato Preto que me enfeita a sala. Estão todos sarrabiscados de nomes, números, comentários de concertos e discos, florzinhas e ideias que nunca concretizei. Não consigo deitar qualquer um deles fora e tenho-me especializado em comprar dos bonitos, para ter uma desculpa adicional.

O último bloco de notas que comprei é uma espécie de moleskine verde, com elástico à volta e um "bolso" no final. A moça que mo vendeu perguntou se eu não o achava «just the perfect note book» e eu tive de concordar. É «sweet», respondi. Ela riu-se e confessou que, ao receber aquela encomenda, teve medo que as pessoas já não ligassem ao que é «just sweet». Mas que, ao final de uma semana, os bloquinhos praticamente tinham esgotado!

Também me perguntaram se não queria levar um com a embalagem completa, e perdoaram o engano no preço, beneficiando o cliente (eu, portanto). Obviamente, estou com saudades de Nova Iorque.

Verão - Outono

Acho que devia ser criada uma nova estação, a juntar às clássicas Primavera - Verão e Outono - Inverno. Na segunda semana de Outubro, por exemplo, estamos em plena temporada Verão - Outono.

Já não se vê ninguém a tomar banho de mar na marginal (ao contrário daquilo a que assistia diariamente, quando apanhava o comboio até Setembro), mas é impossível andar de meias ou casaco sem nos arrependermos da ideia, mal saimos porta fora.

Eu adoro o calor e adoro o Verão, mas odeio esta indecisão térmica. A coisa torna-se ainda mais dramática quando - à semelhança do que aconteceu esta noite - há melgas à mistura. Levantei-me duas vezes para pôr fenistil nas mãos e nos braços e uma terceira para ver se via a sacana da zumbidora.

Cheguei a lembrar-me do Homer Simpson, naquele episódio em que o nosso herói resolve tudo à pistolada.





Um tiro na melga - tinha graça, não? Depois quedei-me a pensar como é que um insecto infecto pode ser mais inteligente (ou, pelo menos, mais ágil) que um humano, e deprimida adormeci.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Estado Civil

Há uma curiosa linhagem de loucura na minha família. Para tornar as coisas (ainda) mais interessantes, centra-se essa tendência do lado feminino do clã.

O caso mais clássico é o da minha tia, apropriadamente chamada de «tia maluca». Em criança achava-a excêntrica e engraçada, com o passar dos anos (e uma temporada de mais de um ano em sua casa), vim a perceber as razões pelas quais o resto da família evita grandes confraternizações com a irmã de meu pai. Os episódios sucedem-se: muitos deles envolvem autoridades (às quais a minha tia recorre por todo o tipo de ninharias), muitos outros são divertidíssimos, sobretudo para quem não tiver de os ouvir em primeira mão, horas a fio (ela não precisa que lhe respondam para dar seguimento aos seus monólogos). É uma pessoa especial - ou então, doida varrida. E mais não me alongo não só porque não é preciso, como porque, afinal, sempre é a mana mais nova do meu pai.

Depois, e sobretudo de há cinco anos para cá, temos a minha avó. Sempre teve um feitio, cough, especial, e a idade agravou certas características da sua personalidade. A partir dos 90, mais coisa menos coisa, começou a inventar largo. A primeira grande história saída da cabeça de alguém que nunca entrou numa escola prende-se com um vizinho nosso, a quem de repente a Dona Maria acusou de ser ladrão. Que roubara roupas, e berços, e tralha antiga de uns galinheiros do seu quintal em Santo Ovídio. Nada disto é, evidentemente, verdade, mas para a minha avó não podia ser mais líquido. Tanto que chegou a ir a casa do senhor, um Sábado de manhã bem cedinho, pedir satisfações e perguntar por coisas que, na sua maioria, não existem há décadas.

Aqui há uns tempos, um choque geracional fez com que a minha avó acusasse a minha tia (mãe e filha, portanto) de lhe roubar os soutiens. Perfeitamente natural, se pensarmos que a minha avó já quase nem precisa de tais artefactos e a minha tia terá uns quantos armários cheios deles. A mãe quer agora mudar as fechaduras das portas de casa para que a filha, que vive a mais de 300 quilómetros de distância, deixe de lhe fanar os soutiens. Um clássico, portanto.

Talvez por passar pouco tempo no Porto, tenho escapado relativamente incólume a esta onda fantasiosa da Dona Maria. Até esta semana, quando a minha avó perguntou à minha mãe como correra o casamento. Qual casamento? O meu.

Pelos vistos, casei na passada Terça-feira, «não pela Igreja, só pelo civil». Parece que ela faz muita questão de sublinhar esta parte.

Gostava de saber em que ponto da nossa relação é que a minha avó fez de mim alguém anti-igreja (sou baptizada, comungada, catequizada, etc e tal) e melhor ainda! alguém que não convidaria os avós para o casamento.

Entretanto o meu padrinho acreditou ligeiramente na história (que, convenhamos, nem está mal inventada) e sentiu-se um pouco triste por não ter sido tido nem achado quanto ao matrimónio da única afilhada. Vou mandar-lhe um sms a pedir desculpa, perdão, a desmentir.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

AM leva-me para o FM

Arranjei mais lenha para me queimar!

A culpa é, uma vez mais, da vizinha AM. Agora, todas as Terças-feiras, das 20h00 às 22h00, podem ouvir-nos a escolher música e falar sobre ela (e tudo à volta) em 105.4, a frequência da Química FM.

Tudo aqui.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Tal como prometido...

Algumas imagens para tentar ilustrar a paixão recente pela Grande Maçã.






















Legenda: um candeeiro olha para o Ground Zero; Gershwin ecoa num túnel de Central Park; o São João em Nova Iorque (ou Little Italy à noite); transporte alternativo na cidade/no distrito das limusines; um parque com livros à disposição, para consumir e voltar a colocar na prateleira; um de muitos restaurantes acolhedores e surpreendentemente económicos; uma limusine de tamanho médio para Manhattan; um pachorrento Domingo de manhã na Quinta Avenida; uma das magníficas “mercearias” com comidas prontas ou prontas a preparar + horários espantosos (abertas a toda a hora, portanto); a bimba mas obrigatória panorâmica da Ponte de Brooklyn.

Ainda...

Sei que estou a ficar (ainda mais) repetitiva e enfadonha, mas ainda penso nisto...





Será que há linhas de ajuda para pessoas como eu?...

sábado, 23 de setembro de 2006

NY, duas semanas mais tarde

Aos 28 anos, sem estar à espera nem fazer nada por isso, fiz algo que imaginava só ser possível muitos anos e muitos subsídios de férias mais tarde: atravessei o Atlântico e visitei, pela primeira vez, a América.

Foram três dias com um serviço (entrevista a careca famoso) pelo meio, mas chegou para me deixar encantar por uma cidade que é muito mais do que isso. Como tentei explicar abaixo, se Londres é um elegante fogo de artifício, Nova Iorque, com os seus ziliões de quilómetros (sobretudo em altitude), cheiros (muitos deles horrendos), ruídos (a toda a santa hora) e pessoas em infatigável trânsito, só pode ser comparada a uma explosão atómica. Caminhar pelas ruas de Manhattan é um atentado aos sentidos, permanentemente despertados pelo tamanho das limusines, ou pelo aspecto sou-boa-demais-para-o-Sexo-e-a-Cidade das transeuntes mais ricaças, ou pelos irrecusáveis pretzels, bagels e companhia, ou ou...

Fiz Central Park quase todo a pé, num Domingo de manhã, descobri a mal-cheirosa e frenética Chinatown por acidente, à noite, e logo de seguida derreti-me com os aromas e as luzinhas meigas de Little Italy. Um São João em plena Nova Iorque? Sem ter posto lá um dedinho de pé que fosse, já sabia, como toda a gente, que Nova Iorque é muitas cidades ao mesmo tempo. Mas a confirmação, na prática, de tal lugar comum deu-me adrenalina para continuar a calcorrear as ruas da Big Apple, ignorando dores nas pernas e as horas tardias que já seriam em Portugal.

A cada passo há uma «photo opportunity» - e eu que só levei um cartão na máquina digital... A cada esgar mais desorientado aparece alguém que nos pergunta se estamos bem, se precisamos de ajuda ou direcções - sem ser preciso pedir. Isto aconteceu várias vezes, quer nas zonas mais abastadas da cidade quer nas que mais se aproximam da nacional «xungaria». Quando eu e o meu colega procurávamos a rua do CBGB's, por exemplo, um velhote veio ter connosco, a perguntar o que queríamos daquela zona. «É que aquilo agora é só winos», alertou-nos ele. Que tivéssemos cuidado.

Esta disponibilidade permanente é, talvez, a impressão mais forte que trago de Nova Iorque. Explicaram-me que, por lá, os empregados de mesa não ganham um salário, mas sim um seguro de saúde e o que recebem em gorjetas. Será isso que os faz cumprimentar toda a gente com um sorriso e esmerar-se no atendimento? Provavelmente. Mas acredito que existe, naquela maneira de ser nova-iorquina, uma apetência muito especial pela rapidez, pela eficácia, pelo ser «despachado» e expedito que supera a compreensível corrida ao dólar. A cidade e todos os seus milhões de habitantes, de todas as cores, tamanhos e idades (vi muitos idosos a passear, auxiliados por complicados derivados de bengalas), parecem viver com uma ideia em mente. Ou antes, com uma missão. E é essa missão que mantém Nova Iorque a vibrar, a zumbir, a fazer tique-taque 24 horas por dia, como um gigantesco coração.

(queria pôr aqui umas imagens, mas o blogger não está a colaborar...)

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Nova Iorque

Já contei as histórias milhões de vezes a pessoas diferentes, mas ainda não me ocorre nada de certeiro nem sucinto para escrever sobre Nova Iorque.

Socorro-me por enquanto de imagens.

Se Londres é isto...



... Nova Iorque só pode ser comparada a isto:



Mais a qualquer momento...

Chico

Hoje comecei o dia a ver um dos DVDs da nova trilogia do Chico Buarque (a do Amor, Palavra e Futebol).

Por razão alfabética ou qualquer outra, peguei primeiro no do Amor. Diz o homem, numa das muitas declarações que polvilham o documentário, que uma letra de canção não é - a nível formal, de conteúdo e intenção - a mesma coisa que literatura.

Pois não, mas o que dizer de letras destas?

«Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você»

É em alturas destas que uma pessoa sente um certo calorzinho no coração por falar Português.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Depois do drama abaixo documentado, este blog prossegue com a sua programação «normal».

Uma estudante de Comunicação do ISCSP (a mesma faculdade que eu e muitos dos seis leitores deste blog frequentámos) fez um trabalho de fim de curso sobre... crítica musical!

Que bom, ver alguém ignorar os temas - muito populares no «meu tempo» - do efeito pernicioso dos desenhos animados nas crianças ou da fisionomia do escaravelho da batata (um destes é mentira, não vou dizer qual).

Pelas respostas dadas pelo Jorge Manuel Lopes e partilhadas no seu blog, deve ser um trabalho bem interessante de consultar, o da Ana Luzia. Deixo aqui a resposta que mais me encheu as medidas:

«15 – Há alguma coisa que considera que deve mesmo ser mudada ao nível da crítica musical no nosso país?
Quem faz crítica musical devia ouvir menos música só para registar mentalmente que ouviu música. Devia ouvir música melhor. Devia ser menos reverente em relação ao passado. Devia ler mais sobre música. Devia ler mais sobre/ envolver-se mais no que nos rodeia (socialmente, politicamente, culturalmente) que não é música mas que tem tudo a ver com música. Devia ter menos medo. Devia ter mais recursos lexicais. Devia ter mais imaginação. Devia ser mais jornalística e, ao mesmo tempo, menos funcional. Devia ser simultaneamente mais subjectiva e objectiva. Devia ouvir música nova mais e melhor. Devia pensar a música portuguesa mais e melhor.»

Antes e Depois (1990 - 2006)

Procedimento habitual pós-derrota importante deste senhor, quando era miúda:

- chorava, ficava ensimesmada no quarto, escrevia no diário

Mulher feita, assisti Domingo à despedida do atleta, após 21 anos de carreira.

- chorei, tirei a roupa da máquina e pendurei-a no estendal, fiz o jantar, fui a um concerto em trabalho e, passados dois dias, vim escrever no belogue

Não há nada como ter que fazer para afastar os macaquinhos do sótão.

Mas continuo algo inconsolável, sim. Como diz a amiga Cibele, é como se uma parte de nós desaparecesse. Como diz o amigo moonshiner, citando os grandes The National, «all you've gotta do is be brave and be kind».

Entretanto, uma dúvida: será o homem um génio (também) da comunicação ou este discurso já estava pensado? É formalmente perfeito e absolutamente delicioso para qualquer fã. Como seguidora de longa data, não podia pedir um agradecimento mais bonito ou sentido. Mesmo sem as lágrimas, aqui fica a transcrição...

«The scoreboard says I lost today, but what the scoreboard doesn't say is what it is I have found. And over the last 21 years, I have found loyalty. You have pulled for me on the court and also in life. I've found inspiration. You have willed me to succeed sometimes in my lowest moments. And I've found generosity. You have given me your shoulders to stand on to reach for my dreams, dreams I could have never reached without you. Over the last 21 years, I have found you. And I will take you and the memory of you with me for the rest of my life. Thank you.»

O discurso e o pranto de que se fala, no link do youtube abaixo.

A prova de que estamos em sintonia, aqui:

«I was sitting there realizing that I was saying goodbye to everybody out there, and they were saying goodbye to me. It's saying goodbye. You know, it's a necessary evil. But we were getting through it together. That felt amazing.»

Photobucket - Video and Image Hosting

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

As verdadeiras estatísticas

Ficam as estatísticas oficiais daquele que, afinal, não foi o último jogo de Andre Agassi.

-> muitas horas de espera até à uma e meia da manhã, hora a que começou a partida com Baghdatis

-> 14 posições no sofá, procurando o equilíbrio impossível entre conforto, boa visibilidade para o televisor e manter-me acordada

-> sete mordidelas de melga

-> um tubo de Fenistil Gel

-> 249 zumbidos de melgas rasando os meus ouvidos

-> zero melgas esmagadas

-> 21 anos de carreira passados em revista num jogo

-> dois sets fáceis, um fácil mas para o outro lado, e dois de puro sofrimento

-> um tenista de Chipre que não merecia - tal como Blake, em 2005 - perder o jogo

-> quatro horas de nervos, génio, coragem, caimbras e até teatro

-> 24 mil pessoas a puxar para o mesmo lado, nem sempre com civismo, mas com paixão inabalável

-> dois match points, um dos quais a valer

-> duas lendas em court (no final, quando John McEnroe entrevista o vencedor)

-> um sorriso único, como diz o amigo JG

-> vários sms de comentário ao jogo e chacota com comentadores, trocadas com o «vizinho» acima referido

-> uma hora e meia de «sono» antes de um acordar complicado

-> uma razão maior para, afinal, ter sido boa ideia adiar para este ano, para este torneio, para esta cidade, o último adeus

Tempos idos

FEEDJIT Live Traffic Feed