terça-feira, 22 de agosto de 2006

Londres

Cada vez que vou a Londres acho-a mais pequena - no bom sentido. Como se, paulatinamente, todas as peças que na primeira visita me pareceram confusas e distantes entre si se juntassem agora num mosaico cada vez mais bonito, compreensível, portátil.

Na semana passada voltei a Londres. Tal como no ano passado, estive pouco mais de 24 horas na cidade, trabalho oblige!, mas foi o suficiente para tirar várias notas mentais que ainda não partilhei por aqui graças a alguma preguiça. Mas Londres merece, como tal cá vai...


1. Londres sabe receber. Entro no comboio para o centro da cidade e está a revista do aeroporto de Gatwick à minha espera, com o Gael García Bernal na capa. Chego ao pequeno hotel de Camden onde viria a pernoitar e descubro que, naquela noite, há projecção de um dos meus filmes favoritos de sempre, "Shallow Grave". Na mesma tarde, dois polícias (um preto, outro branco, ambos extremamente prestáveis e divertidos - tal e qual como nos filmes) reparam numa portuguesa à nora no metro e dispõem-se a ajudar-me, sem que eu lhes pergunte nada. Pouco depois, um senhor entabula conversa comigo à conta das fotos que ia tirando, rua fora, com a descartável comprada no aeroporto, e ficámos uns bons minutos em amena e civilizada cavaqueira. No dia seguinte, vejo um polícia de moto, parado nos semáforos, a avisar duas turistas que corriam rua fora - os guardas a cavalinho iam passar no outro sentido. Os funcionários dessas malévolas corporações (Starbucks, para quando os teus apetecíveis cafés em Portugal, para quando?...) que inundam a cidade não nos atendem sem, na despedida, nos desejarem um bom dia, e parecem sinceros. Há uma sensação de ordem que não faz da cidade um sítio frio, pelo contrário. Em Londres, toda a gente parece estrangeira e, paradoxalmente, local.

2. Um dia é suficiente para encontrar muitos cromos. Antes de regressar, almocei num restaurante multilingue perto de Westminster. A empregada que serve às mesas na cave é supersónica: quando está por perto, ouve-se falar/gritar Italiano, Inglês, Português e voam pelo ar piropos do «bella» ao «doutore». Quando sobe ao primeiro andar, a sala fica subitamente vazia e morta. Os seus passos apressados, escadas abaixo, antecipam o retorno da energia e do vendaval linguístico à sala. Parece a Carla do "Cheers", jeans justas e sapatilhas brancas, mas em bonito. Não chego a perceber de que nacionalidade é mas despede-se com um «obrigado». Não é isso que me deixa com saudades antecipadas, mas a jacket potato também estava boa.

3. No centro fino de Londres, há dezenas de fashion statements ambulantes. A pose, a roupa, a simples forma como pisam a calçada lembram-nos os incontáveis movimentos estéticos, sociais ou musicais que a cidade já viu - ou já fez - nascer.

4. Ninguém tem medo da chuva. Eu também faço de conta que não me afecta, mas ainda deito um olhar furtivo às banquinhas de rua, esperando encontrar algures um guarda-chuva chinês a preço de amigo (cinco libras não só cinco euros, cinco libras não são cinco euros - luto comigo mesma para não me esquecer desta verdade básica mas essencial).

5. De todos os não muitos sítios onde já estive, Londres é o que mais se assemelha ao coração do mundo. Na sua grandeza, consegue ser - cada vez mais, para mim - pequena e acolhedora, solidária e hospitaleira, excitante mas amigável. Que atentem contra esta cidade e este ideal magoa-me (quase) tanto como se a bomba rebentasse na porta ao lado. Sem ofensa para os corações de mundos alheios.

6 comentários:

Filipa Paramés disse...

realmente Londres sabe receber.
e quem quer regressar na hora da despedida?

welcome back. ;)

ps: queria o teu endereço de email. a comissão agradece!

Anónimo disse...

Hello :)

Vou dar o teu texto ao Vasco para ele ler.
Tenho a certeza que depois de o ler ainda vai ficar com mais vontade de ir a Londres, eu cá fiquei com saudades :)

lia disse...

Olá Filipa! : )

Podes escrever para pereira.lia no gmail ; )

Força Cibele, o camarada Vasco cederá! :D

Anónimo disse...

Costa, os cafés Costa (isto digo eu para poder acrescentar alguma coisa e falar mal do Starbucks que é uma cena mais mainstream).

Londres dá sempre uma vontade enorme de voltar :) eu ia já amanhã.

lia disse...

Claro, devia era haver um Gaiteiros Cappucino para ti... :D

Mas sim, o Costa, com o seu delicioso slogan Prêt A Manger (que na nossa primeira visita a Londres eu e as minhas companheiras líamos «prétámángêre») legisla sem vergonha nem contemplação :)

Anónimo disse...

melher, tenho os olhos marejados de lágrimas depois de ler teu post..

haverá amor maior que este?.. :)

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