domingo, 29 de fevereiro de 2004

E batata viu cena de... batatada

Mesmo antes de partir (alguém consegue resistir a completar com «naquela estrada... onde um dia chegaste a sorrir?»), gostava de contar mais um episódio da saga «42 - Viver e Sobreviver entre o Casalinho da Ajuda e o Casal Ventoso».

Pois é, eu não tenho culpa de o ranhoso do autocarro, e seu respectivo percurso, me darem jeito, especialmente quando tenho de me desalapar do sofá e vir trabalhar. Naquela carreira da Carris, experimentei já sensações ao alcance de poucos, como ser acusada por uma chunga em avançado estado de putrefacção de não me desviar para que ela se pudesse sentar mais à larga. Também assisti, há pouco tempo, à conversa entre um ex-segurança, irado por, no barbeiro, lhe terem cortado o cabelo de uma forma que o impedia de, posteriormente, seguir o penteado «da moda»; o seu interlocutor era um senhor de cor indistinta e com três metades de dente penduradas na boca. A sua grande preocupação, porém, era mesmo precisar de cortar o cabelo e não ter roupas suficientemente boas para, um dia que tivesse 70 mil contos, poder convencer os donos de um condomínio de luxo a venderem-lhe um apartamento.

Mas já me estou a distrair do essencial. Na passada Quinta-feira, regressava eu a casa a bordo do luxuoso veículo, quando começo a descortinar o característico som de uma zaragata. Infelizmente, estava bastante longe do epicentro da acção... mas ainda assim, consegui aperceber-me do essencial, e guardar na memória mais uns belos momentos de História.

Zangadas com uma mulher de meia-idade por esta não ceder o lugar a uma jovem com criança, duas raparigas ciganas faziam considerável cagaçal. A senhora, que até ao fim manteve o cu no assento destinado a grávidas, idosos e deficientes, alegava ser velha (ou pelo menos eu penso que era isso que ela dizia, num fio de voz abafado pelo basqueiro geral). Retorquiam as ciganas:

«Velhice não é doença!»

Na mesma voz tímida (ou medrosa?), a mulher argumentava que ter uma criança também não era doença. Lógica interessante, desmontada argutamente da seguinte forma, pela rapariga cigana:

«Não, mas sabe qual é a diferença? Se você for de pé no autocarro e cair, e morrer, não se perde nada! Ninguém se dá pela sua falta! E uma criança não é assim!»

A afirmação foi seguida de um «ôôôh» intenso, como nas sit coms gravadas ao vivo, com muita surpresa e indignação pelo meio. Não sei o que terá respondido a mulher, cujo cabelo tinha umas nuances avermelhadas, mas o passo seguinte da rapariga foi ameaçar:

«Eu parto-te a cara toda, tu queres apostar?»

levantando-se para concretizar a promessa. Agarrada pelos passageiros mais próximos, a moça quis, no entanto, mostrar que não era gaja de se ficar. A agressão concretizou-se, assim, com o que a rapariga tinha, literalmente, mais à mão: um balão da McDonalds, sacudido repetidas vezes na cara da outra.

O belo episódio ficou completo com uma discreta referência à penugem da mulher -- «Ficas com o cabelo azu-le! Tens o cabelo vermelho, mas até ficas com ele azu-le!», gritava a cigana -- e, numa altura em que os ânimos pareciam já ter serenado, a bela despedida:

«Hei de fazer uma reza... vais morrer cedo!»

E com isto me dou por contente por, na única vez que uma cigana me leu a sina, me ter garantido, apenas, que eu nunca iria ter dinheiro.

Até amanhã!

Batata faz publicidade

Quando está afastada do sofá roto, mas não cor-de-rosa, que tem lá em casa, esta batata gosta de escrever, noutros suportes que não o digital. E como também gosta de partilhar (e como está nas lonas), gostava de convidar os cinco leitores e meio (tem havido um crescimento exponencial de visitas) deste blog a (tentar) adquirir uma bela publicação, misto de fanzine e carolice, chamada "Indies & Cowboys". Já vai no sétimo número e tem letras, musiquetas e bonecos na dose certa. Podem encontrá-la nas livrarias Tema (Colombo e Restauradores), Assírio e Alvim (Cinema King) e Barata (Avenida de Roma), bem como na Kingsize e na JoJos, no Porto. São só dois euros.

Eis a capa da última edição:



Obrigada e desculpem lá qualquer coisinha. A emissão prossegue dentro de momentos.

Sofá de todas as cores

Agradecendo os comentários elogiosos dos benfeitores que não só não me criticam pelo tempo passado no sofá, como até (lhe) acham alguma piada, regresso hoje, num Domingo de trabalho, aqui ao cantinho esverdeado.

De outras cores se pintam os programas da manhã das nossas televisões. Já vos tinha falado no fantástico pivot de exteriores da RTP, a quem a Praça da Alegria, não sei se por ausência do Jorge Gabriel, abriu as portas do estúdio, esta semana. As minhas atenções dirigem-se assim, e desta feita, para o "SIC 10 Horas", apresentado pela Fátima Lopes (que outro dia apresentava, também, num sonho que tive, um programa sobre violência doméstica. Mas isso agora não interessa -- mesmo -- nada).

No dito "SIC 10 Horas" (adoro a subtileza do lembrete... não começa nem às 9h, nem às 11h! É mesmo às 10h!), flutua uma rubrica que dá pelo elucidativo nome de "Tertúlia Cor-de-Rosa". Para lhe dar corpo, há um ror de convidados fixos que se alapam frente às câmaras, de microfone na mão e cérebros a mil, para comentar a vida dos outros: mas com a desculpa de, no fundo, não estarem a falar da vida dos outros, mas sim do tratamento que é dado pelas revistas (inevitavelmente cor-de-rosa) a essas mesmas existências, famosas e mediáticas.

Ainda há quem diga que se perdeu o espírito das conversas de café, dos planos intelectuais que se traçavam nos grandiosos salões de chá que, para alegria dos meus olhos e gostos arcaizantes, se continuam a encontrar um pouco por todo o país. Hoje, podem não se orquestrar revoluções nem discutir obras literárias enquanto se «psst-chama» o empregado, mas leva-se o conceito mais além. Na televisão, discute-se a forma como os outros falam de terceiros. Faz lembrar as clássicas caixinhas de fermento royal e sua permanente fuga para o infinito.



Na semana que passou, decidi atentar com mais apuro na tal tertúlia de cor rota. Este é, justamente, o tipo de programa que convém ver mais de uma vez, para nos certificarmos que a coisa existe mesmo, não resultando portanto de um delírio matinal, provocado pela remela que o duche ainda não levou.

Em fila desordenada sentavam-se os comentadores convidados, à excepção de Marta Cruz, de férias em Cabo Verde com a mãe, Marluce. E nada melhor que começar a tertúlia daquela manhã exactamente cortando na casaca da jovem modelo! Ou, para ser mais rigorosa e politicamente correcta, na forma como as revistas de sociedade e televisão falam da menina, atribuindo-lhe paixões que não passam de amizades, ou «climas naturais, entre dois jovens bonitos». E, o que é pior!, bradam as sumidades da imprensa, dando informações contraditórias, em cada uma das publicações.

Conhecendo a lógica (?) que subjaz (??) às revistas que inundam prateleiras de supermercados e estações de serviços de há uns anos para cá, e não sendo propriamente defensora do pardieiro de vidas pessoais e inanidades que enche as capas das ditas, não posso senão achar hilariante que exista um programa para comentar, e criticar, as notícias que as mesmas trazem à estampa.

É curioso que aqueles analistas tanto se indignem com a falta de rigor da informação divulgada, ou com a atenção dada «aos romances» das estrelas, apelando a que se fale mais do seu desempenho profissional... quando a sua própria aparição no "SIC 10 Horas" depende das revistas zurzidas.

Faz-me pensar num abutre a lamentar a quantidade de gente que se perdeu no deserto e a cujas carcaças teve de dar um gastronómico destino.

O que vale é que, mesmo que o "SIC 10 Horas" não tivesse dado à luz a "Tertúlia Cor-de-Rosa", comentadores da estirpe da modelo Raquel Broegas (*) ou do cabeleireiro Eduardo Beauté (quem?) teriam, graças aos seus reconhecidos méritos, lugar garantido em qualquer programa de grande audiência.

(*) Também não sei quem é, mas, surpreendentemente, o tema que mais a fascinou, naquela manhã, foram os múltiplos namorados da Marisa Cruz, num espaço de poucos meses. «Eu começo a pensar que se trata apenas de uma manobra de marketing», vaticinou a parte completamente desinteressada.







sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

Sofá Gold

Esta batata tem andado aos caídos, com tanto trabalho. Nem tempo para espreitar as vistas do sofá arranja... mas como não quer ter a barraca digital às moscas, lembrou-se de inaugurar uma nova rubrica. Apresento-vos, pois, o Sofá Gold, um espaço dedicado às nossas melhores/piores memórias televisivas. Quando não houver matéria-prima mais fresca, vai-se ao congelador e pesca-se meia dúzia de petiscos, em bom estado de conservação, mas a precisar de arejar.

Na minha última visita ao Norte, tive a oportunidade de passar mais de meia hora num autocarro da STCP, a empresa que transporta o povo do Porto e arredores. Para chegar da Invicta a Santo Ovídio, não só demorei quase uma hora, como me contorci de riso, graças a uma dupla de mulheres, piores que os velhotes dos Marretas, com um discurso imparável e mais divertido do que alguma vez elas terão pensado. Já aqui tinha falado nesta teoria, mas cada vez se me afigura como mais verdadeira a ideia de que o humor é tanto melhor, quanto mais involuntária é a sua criação. Adiante.

A converseta das senhoras fez-me lembrar a brilhante intervenção, há coisa de dois (?) anos, de uma utente da mesmíssima empresa, no telejornal da RTP. Tinha havido uma colisão entre dois autocarros, na baixa do Porto; assustados, alguns passageiros contavam à televisão como acontecera o acidente, se tinham sofrido ferimentos... o habitual. Eis senão quando chegam os cinco segundos de fama de uma mulher, que se havia escapulido do veículo pela porta do meio do autocarro (são aquelas viaturas bem compridonas, com três portas, em vez de duas).

«E os autocarros bateram, e eu saí pela porta do meio...», contava, um pouco exaltada, a senhora.

Quer então o repórter saber como se processara a chegada da polícia, ou das ambulâncias, ao local do acidente. Responde a entrevistada, no mesmo tom high pitched, mas sem perder a naturalidade:

«Bem, isso não sei, porque ao sair do carro escorreguei nas folhas e nessa altura já estava na valeta!»



Isto pode não ter muita piada agora (digo eu, a lutar contra o riso, no local de trabalho), mas na altura deixou o Sofá Verde e suas habitantes em delírio. Curiosamente, poucos dias depois, esta batata partilhou umas boas gargalhadas com a sua irmã, aquela trocada à nascença, de quem falei no thread sobre o "Quem Quer Ser Milionário".

Falava-se, na TVI, de um padre milagreiro que, entre outras boas acções, devolvera, numa qualquer aldeola portuguesa, o dom da fala a uma senhora que, durante anos a fio, nada dissera. Naturalmente, a mulher nutria pelo pároco (nunca mais me esquece que tinha o nome da melhor voz da TV portuguesa) uma forte devoção. Dizia ela que só os préstimos do senhor (Senhor?) lhe tinham dado de volta a voz, depois de anos de curas e tratamentos sortidos. Pergunta-lhe a jornalista, provavelmente a título de curiosidade, qual a primeira palavra pronunciada, após tanto ano de silêncio.


(Pensem no vosso caso... diziam o nome do vosso batato? Um "aleluia!" sonoro e apropriado? Uma impaciente caralhada tipo "até q'enfim, foda-se!"?)

Agora imaginem a cara sorridente da amilagrada, a arreganhar a tacha e revelar a primeira palavra depois do jejum:

«Foi 'lixívia'!!!»

Bom fim-de-semana!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2004

Avanços da Medicina, em versão recauchutada

A batata às vezes testa as histórias em amigos. Se eles não gostam, volta para o saco guardado debaixo do guarda-louças. Se se riem, atreve-se a saltar para a frigideira e partilhar os salpicos do óleo com quem de direito. A narrativa que se segue é por demais conhecida de muitos que a irão (?) ler, mas não resisto a passá-la para um registo mais palpável e abrangente que a conversa à mesa do café.

Nessa verdadeira instituição que é o Jornal da TVI, onde os pivots se referem às crianças como «miúdos» e aos idosos como «velhotes», uma notícia verdadeiramente insólita teve honras de destaque na edição de Sábado. Uma senhora, dos seus 50 e tal anos, queixava-se de ter ido na cantiga de um falso médico, que lhe entrou pela casa dentro, oferecendo-se para lhe fazer um rastreio gratuito ao cancro da mama. Nesta, mesmo eu, que sou lorpa com carteira profissional, era incapaz de cair. Mas a pobre mulher abriu a porta de sua casa, e os botões da blusa também, deixando que o charlatão de modos elegantes lhe apalpasse as mamas (será que esta história passava na TV americana? Com o escândalo da Janet Jackson, andam todos muitos sensíveis...). Encantado com a saúde da senhora, o homem terá mesmo dito que a "paciente" tinha «uns mamilos muito bonitos para a sua idade», frase que, quanto a mim, lhe permite entrada directa para o panteão dos criminosos mais divertidos dos nossos tempos.

Só quando o prestável doutor regressou ao local do crime, oferecendo-se para um segundo exame, é que a mulher, e o seu marido, desconfiaram. O homem fugiu, quando o cônjuge enfurecido tentou anotar a matrícula da sua viatura. A polícia diz nada poder fazer, já que a senhora permitiu a entrada em sua casa do trafulha. A minha parte favorita, no entanto, foi a confissão da lesada às câmaras da TVI (em horário nobre, recorde-se):

«O meu marido ficou muito mal. Até me disse: 'Ó mulher, tu não contes isto a ninguém!'»

Passem a palavra: rastreio sim, mas nem por satélite nem ao domicílio.



Sofá com a lágrima ao canto do forro

É um privilégio poder escrever apreciações inanes sobre programas palermas e receber palavras de incentivo à conta das mesmas. Agradeço-vos a fidelidade e os comentários mai-recentes, e vou fingir que não sei que só chegaram aqui porque passam a vida a pesquisar, no Google, por Morangos com Açúcar, Anjos e afins.

Depois da provocação amigável do dia, alguns considerandos. Quer-me parecer que há quem tome este cantinho como espaço de devoção exclusiva à bidiária novela da TVI. Ora, por muito que goste da fauna do Colégio da Barra, dificilmente a paixão é monogâmica, e há outros assuntos a debater neste blog. Neste momento, como não me ocorre mais nenhum, vou voltar a falar do digno sucessor dos "Riscos", como bem lembrou o Marcos, em comentário abaixo.

Recentemente, as revistas da especialidade noticiaram uma viagem romântica, nas férias da Páscoa, de Pipo e Matilde, rumo à Serra Nevada. Haja dinheiro! Quando a batata andava no Liceu ia, quanto muito, para as esplanadas das praias de Gaia, se em Abril já fizesse sol. Mas adiante. Chegado à estância de neve, o casal passa uns belos dias de romance, até que uma perseguição, movida pela implacavelmente enjoada Joana

( a do meio: )

faz uma baixa. A Matilde, aka sporty strawberry, irmã da Lúcia Moniz e prima da Joana, vai pela ravina abaixo, passa a noite no hospital, toda escangalhadinha, e dá a Pipo a oportunidade ideal de voltar para os braços da sua ex. Repare-se como, a imagens idílicas de uma grande paixão entre o primata e Matilde, se segue um acidente aparatoso e um rápido regresso à relação anterior.

Na minha opinião, não se trata de desapego ou falta de fidelidade, por parte do protagonista da série. Simplesmente, Pipo, autor de notáveis cálculos mentais (outro dia, ao balcão, concluiu que cinco euros mais cinco euros são dez euros), tem as suas limitações, e não fez mais que confundir as primas. Vamos lá a ver o que acontece quando Matilde recuperar a forma.

domingo, 1 de fevereiro de 2004

O Sofá Verde começa por pedir desculpa pela longa ausência. Curiosamente, esta batata tem estado tudo menos sentada, a ver os bonecos a passar -- o começo de ano tem sido animado, ainda que pouco animador, e as coisas que a televisão tem escolhido para passar dão(-me) mais vontade de chorar do que de rir, e aqui partilhar essas gargalhadas.

Esta batata arrepiou-se até ao último tubérculo com as imagens, faz hoje uma semana, da queda de um futebolista de um clube que não é o seu, mas que, naquele momento, a fez tremer como se de um amigo de longa data se tratasse. Achei bonita, se bem que estranha, a solidariedade unânime causada pelo seu súbito desaparecimento, e andei uns dias a pensar nisto. Ontem, quando me acordaram para dizer o que o treinador de outro clube (que também não é o meu) diz-que-disse sobre um jogador de ainda outra equipa (que, juro que não estou a gozar, também não é minha), concluí que o luto devia ter sido levantado. E de cabeça pouco erguida, porque antes a dignidade sóbria de antes que a palhaçada circense de hoje, lá me arrastei de volta ao Sofá.

Com pouco para contar, mas algumas coisas a merecer um alerta máximo: no "Morangos com Açúcar", esse anti-depressivo que a TVI agora me serve em dose dupla, personagem completamente maléficas deram à costa do Colégio da Barra. Ao aprendiz de Sapinho junta-se agora a filha perdida da Professora Constança (Samarinha, estou contigo! Tantos "oh querida" também me põem a cabeça em água...), uma miúda abandonada à nascença, e quase dá perceber porquê. A gaja tem o condão de ser mais irritante que metade das outras personagens juntas, ou que a mania de o filho da Helena Isabel ajeitar os óculos com as palmas das mãos abertas. Está sempre enjoada, viveu nos EUA mas não tem sotaque, aparte um ocasional e mal esgalhado «OK, you know...» e abre-me o apetite para a cacetada. Fez, no entanto, a boa acção de mandar o Ricardo (beto mais acalorado da história) dar um mergulho num lagueco qualquer, disseram-me ontem. Se não soubesse que os dois hão-de acabar juntos, a carpir maldade pelos cantos de uma qualquer escola profissional, não lhe(s) tinha metade do pó actual.

Mas porque se faz tarde, e não quero que vos falte nada, o mais importante aviso é: hoje (1 de Fevereiro), os Anjos vão actuar no Colégio da Barra! E foi a própria (barra -- trocadilho foleiro, mas saiu-me) que o anunciou: numa tentativa de salvar a escola da perdição (o Sapinho fez publicar uma notícia na qual se diz, e com propriedade, que o colégio tem uma directora ex-tocicodependente, um professor tarado, outro assassino, e um aluno de passado criminoso), o Rafa arranjou um espectáculo... para angariar dinheiro... e quem melhor para agradar à chavalada de uma escola secundária de Cascais que os Anjos?

Olé, TVI e reciclagem de artistas em novelas, Olé!

Prometo um regresso, em breve, e em melhor forma. Até lá... Vão imaginando gente como esta:



a ouvir isto:

sexta-feira, 9 de janeiro de 2004

Sofá em Festa

Esta batata está delirante. Ultrapassou a barreira dos três leitores (contando comigo, que sou meia) e já recebe feedback. Um grande bem-haja, pois, à amiga que forcei a visitar este blog, e que na resposta/retaliação, me mandou a mais valiosa das contribuições: fotos do Hélder Reis, grande protagonista do post "O Rei da Festa". Ela aproveita também para dizer que, há tempos, a própria Mãe da jovem esperança televisiva ligou para a "Praça da Alegria", onde ele labuta, assegurando que o filho sempre foi «um menino de ouro». Mas vamos às fotos, que é o que faltava ao post, lá mais em baixo. Saravá, Miss Wee!...







Apesar das parecenças com o Marco Paulo e/ou o típico concorrente do "Big Brother", é mesmo ele. Na "Praça da Alegria" tem um ar mais caseirinho e os tais cachecóis acetinados para os quais alertei, aqui.

Bom fim-de-semana!...

Do sofá para o assento

Nem sempre a batata está no sofá. Este Natal, por exemplo, teve de se levantar cedo, no dia 27, para ir à Baixa do Porto trocar uns sapatos. Pequena estatura, mas pata larga, dirão alguns. Ao atravessar a ponte, de Gaia para a Invicta, avistei a origem da confusão mental do concorrente do "Quem Quer Ser Milionário", glosado no post abaixo: rapazes a fazer canoagem. E ainda eu me queixo por ter de caminhar quase duas horas, à chuva, para encontrar uma sapataria e outros estabelecimentos! Há quem se levante para ir remar para o Douro, um habitat tão frio como badalhoco, pelo menos naquela zona do seu percurso.

No regresso para a Margem Sul, o condutor veio em franca e animada converseta com um seu conhecido, instalado numa das primeiras cadeiras da camioneta. Comes e bebes, mas sem a parte do comes, eram o prato principal da suculenta conversa. «Se tu ali ao café é pela garrafa, imagino em casa! Só pode ser pelo garrafão!», alvitrava o passageiro. «Mas tens dúvidas? Claro que é!», confirmava o condutor, aparentemente sóbrio, enquanto passávamos a Ponte do Freixo (e Deus sabe que, se há coisa que eu detesto, é atravessar pontes, quanto mais com condutores bebedolas ao volante).

Mais à frente, viria o senhor a confessar que, naquela manhã, já tinha bebido «três cafés e três bagaços. Cheguei à Batalha às 7h, pumba! Depois em Crestuma, chamaram-me para ir tomar um café, outro!». Do terceiro café e anexo bagaço já não me recordo do cadastro, mas estaria, naquela altura, a fermentar algures no ensopado organismo do condutor.

«Mas eu nem bebo muito!», ia intercalando o nosso herói, que não é da televisão mas cujas proezas davam um filme. A páginas tantas, começa a partilhar com o povo que ia na camioneta (três ou quatro gatos literalmente pingados, mais o interlocutor directo da conversa) os seus planos para o dia seguinte, um Domingo:

«Por exemplo, amanhã vou comer a casa da minha sogra, e é feijoada, uma comida que puxa muito a bebida!»

Comecei a achar que a conversa tinha grande potencial para descarrilar ainda mais.

«Eu, sempre que como feijoada», dizia o condutor do chaço velho, «à noite, lá em casa, parece a Guerra do Iraque! PUM PUM PUM!», ilustrou, não satisfeito com a nauseabunda comparação.

Do outro lado da conversa, o silêncio (de fundo, as minhas gargalhadas abafadas).

«Então, não gosta de feijoada?!», indignou-se o condutor, perante a falta de resposta do companheiro.

«Gosto, gosto...», balbuciou o outro. Como diz o meu batato, um dia que o lixo reciclado de países como a Alemanha e a Turquia (!), usado nas camionetas daquelas empresas, dê de si às mãos de uma esponja ambulante, as entidades (ir)responsáveis hão-de abrir «um inquérito para apurar todas as responsabilidades». Até lá, este senhor que já deu de comer a não sei quantos milhões de portugueses vai continuar a fazer a desgraça de outros tantos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2004

Antenas soltas

O Natal e o Ano Novo são belas ocasiões para aterrar no sofá; para escrever em blogs, nem por isso, já que o tempo nos chama para as labaredas de uma lareira acesa, na casa de férias, sem computador nem saudades de teclar. No regresso ao trabalho, a vontade de contar as últimas descobertas fala mais alto, mas as férias, intermináveis, dos colegas de barraca nem sempre ajudam ao regresso à forma. Ficam aqui, então, algumas historietas palermas, em formato post it.

Gosto muito do "Quem Quer Ser Milionário". Gosto, é como quem diz. Dá-me o mesmo prazer inquieto que um filme como o "Mystic River", por exemplo. A música irrita-me (que xaropada, ó Clint Eastwood!), o suspense dá-me cabo dos nervos, enervo-me com a burrice dos participantes, mas não deixo de ver até ao fim, sempre que posso.

Posto isto, devo confessar ter a certeza que, se fosse ao concurso e, por obra de um qualquer milagre, passasse à segunda eliminatória, nem à pergunta «Qual é o seu primeiro nome?» seria capaz de responder. Aquela história de as câmaras de televisão intimidarem não é verdade, é um eufemismo. Estar a falar na tê bê é um atrofio generalizado, de não saber para onde olhar, como falar, se gesticular... Recomendável a masoquistas ou pessoas com um feitio diametralmente oposto ao meu. Mas adiante.

Antes do Natal, um rapaz parecido com o namorado da minha melhor amiga fez um brilharete no "Quem Quer Ser Milionário". Levou para casa 100 contitos, o que me parece francamente mais do que merecia. À primeira pergunta, precisou da ajuda do público para decidir se o arroz era um cereal, uma vagem, um legume ou uma semente. Boa parte da assistência não tinha certezas, também. Passado este começo arenoso, o concorrente chegou de forma misteriosa -- e à qual não assisti, por estar na cozinha -- à  marca dos 500 euros. E a pergunta para atingir essa maquia, tão simpática como útil, nos dias que correm, era: «Qual o nome das embarcações típicas do Rio Douro?»

Não saber que esta coisa



se chama barco rabelo, é aceitável (num contexto um pouco alienígena, mas é). Achar a hipótese «canoas do Douro» a mais tentadora, surpreendeu-me. Ignorar consecutivamente as dicas do Jorge Gabriel, que até as «Canoas do Tejo», de Carlos do Carmo, entoou, de forma a ensinar ao concorrente que uma coisa é esse rio, e outra o Douro, exasperou-me. Teve o senhor de recorrer à ajuda dos 50/50, que, maliciosamente, o deixou com as hipóteses: canoas do Douro e barcos rabelos. O homem insistia, tinha mesmo a impressão que eram canoas do Douro, aqueles barquitos que via, de cada vez que ia ao Porto... A esta hora já eu me contorcia no sofá; no dia seguinte, fui a casa da minha octogenária senhoria, pagar a renda, e soube que também em casa dela a agitação fora grande. «Se o meu marido, que era uma pessoa tão culta, fosse vivo...», imaginava a idosa, enervada.

Não fosse o Jorge Gabriel apelar à calma, quando o homem queria bloquear as canoas, e tinham os 500 euros ido por água abaixo. Valeu-lhe a sapiência da Mãe, a quem telefonou para resolver a azucrinante dúvida. Se fosse meu filho levava uma lapada, ao chegar a casa. No dia seguinte perdeu, por teimar que o António Vitorino era Secretário-Geral da NATO.

Já em pleno ninho familiar, assisti a outro momento para a história do "Quem Quer Ser Milionário". Um arquitecto de bigodes retorcidos foi ao programa para mostrar ao Jorge Gabriel como era esperto. A cada pergunta, por mais simples que fosse, dava uma resposta supostamente espirituosa e irritantemente longa. Se lhe perguntavam o que significava a bandeira a meia haste, virava-se para o apresentador e retorquia: «Andou na tropa?» Nestas alturas, o Jorge Gabriel deve pensar nos tempos da "Roda dos Milhões": põe o seu melhor sorriso e responde que sim senhora, esteve lá um ano e meio. «Pois é», dizia o outro. «No meu tempo a bandeira a meia haste era uma coisa curiosíssima, decidida por decreto-lei...», yadda yadda yadda. Quem era uma das protagonistas do "Thelma e Louise?" «Ah, esse filme, com um fim tão...», divaga o concorrente. «Surpreendente?», tenta o Jorge Gabriel rematar. «Não! Sabe que, desde o começo, eu vi logo que aquele era o único final possivel, porque...», yadda yadda yadda.

À segunda pergunta, já o homem tinha conquistado uma forte falange de inimigos, lá por casa, numa união familiar só possível por alturas do Natal, e visando a desgraça de alguém. Já não sei qual a pergunta que fez claudicar o detestável concorrente, mas lembro-me dos urros de felicidade partilhados com a minha irmã, personagem com a qual, de resto, só costumo partilhar os genes, e é porque tem de ser.

Nos próximos episódios: "Tiroteio A Bordo" e a Guerra do Iraque, vista pelos condutores das camionetas de Oliveira do Douro

domingo, 21 de dezembro de 2003

Ó Pipo!

As vistas do Sofá Verde nem sempre são bonitas. De há uma semana para cá, porém, e se me virar para o lado certo, tenho à minha frente um belo espectáculo: pela primeira vez desde que vivo (relativamente) sozinha, ou seja, desde os idos de 96, tenho uma árvore de Natal. Comprei-a na "Loja Económica" da rua acima da minha, depois de me terem oferecido dois sacos gigantes e prenhos de decorações, novinhas em folha. Gosto de ficar a olhar para as agulhas desalinhadas e para os fios das luzes, em silêncio. Como diria o outro, na canção dos Blur, «it gives me a sense of enormous well being».

Mas felizmente, e para equilibrar as coisas, do outro extremo do sofá continuam a ver-se, com agrado, as mesmas inanidades de sempre. Se há programa que encarna na perfeição o espírito deste cantinho, é a mais bem sucedida novela da TVI, "Morangos com Açúcar". Ter um blog sobre TV e não falar sobre esta magnífica produção seria como ir a Roma e não ver o Papa (se bem que, de momento, com as ameaças à segurança do Santo Padre, a proeza não deve ser assim tão simplória. Mas adiante).

Em "Morangos com Açúcar", série que esteve para se chamar "Baía do Sol" (se tem algum jeito! "Morangos com Açúcar", mesmo que não perceba a razão do título, é que é!), a acção gira em redor de um grupo de jovens com muito em comum. Frequentam todos a mesma escola (o Colégio da Barra!), a mesma praia (quer seja Verão, o que acontece em 95% das cenas, ou Inverno enevoado), gostam todos de roupa de marca e parecem todos estupidamente mais novos ou mais velhos do que as suas personagens.

Exemplo: este miúdo passou uma grande vergonha quando o seu amigo desencaminhador (Rodas, o rapaz com as sobrancelhas mais inclinadas da história da televisão) descobriu a sua virgindade. Tentou o chavalo defender-se, lembrando só ter 15 anos. Atente-se à sua carinha pré-púbere:



Pelo contrário, o seu irmão, sobre cujos ombros recai a responsabilidade de criar o clã, sem pais desde o dia em que um professor do colégio os matou num acidente de carro, anda no 12º ano mas tem um corpanzil de quem exerce o nobre ofício da construção civil desde meados da década de 80. Observe-se:



No Colégio da Barra, ninguém se preocupa com notas e exames, e os que o fazem (até agora, contei um) são de imediato rotulados de "marrões e cromos". A miúda a quem calhou o desgraçado na rifa rapidamente o trocou pelo lourinho virgem (ver foto acima), congratulando-se o tal de Rodas por as miúdas preferirem sempre os "freaks". Curiosamente, no Colégio da Barra, não há senão betos. Recentemente, talvez para dar (ou retirar!) um certo colorido à série, apareceu uma nova personagem, cujo nome agora me escapa. Para dizer a verdade, também não interessa nada, porque para ficarmos a par da sua fisionomia, basta lembrarmos o papel desempenhado por Wes Bentley em "American Beauty".

Tal como essa personagem, o outsider em "Morangos com Açúcar" veste de preto e usa um barrete. Preto, também. Cachecol, casaco e sweat shirts são outros dos acessórios que o moço -- sensível e adepto das leituras -- não dispensa, fazendo um curioso contraste com a roupagem dos seus colegas, que parecem reflectir todas as cores do arco-íris. Há-de acabar com a neta do Raul Sonaldo, até ver a melhor actriz dentre os novitos da novela, a quem cabe desempenhar a sempre necessária personagem atinada e afável.

Muito pouco estereotipados, em "Morangos com Açúcar", são também os professores. Há pouco tempo, Rogério Sapinho, inesquecível Lúcifer em "Duarte e Companhia", foi expulso do Colégio da Barra pelos seus indisfarçáveis maus fígados, e pouco simpática tentativa de assassinar o professor Eduardo (por sua vez, assassino dos pais de Pipo e companhia). Austero e intolerável, o professor ameaçou voltar, e pelo que vi esta semana, não perdeu tempo. Há agora uma personagem a quem só vemos as mãos, cobertas por negras luvas de couro, que dá instruções maléficas a um rapaz betíssimo, de fato. Este aprendiz de Sapinho é um dos novos professores do colégio e vai ajudar a desestabilizar o dito, seguindo as instruções do seu mestre. É uma daquelas personagens cuja missão, numa novela, é garantir que tudo corre mal. Há quem pense tratar-se do afilhado de Rogério Sapinho. Não digo que não, mas também pode ser um simples argumentista.

Felizmente, parece estar resolvido o equívoco que levou a professora Constança (directora do Colégio, papel vivido por Rita Salema) a suspender o professor Nuno Sacramento, por alegado caso de assédio sexual, exercido sobre a insonsa Mónica (ex-apresentadora do Curto Circuito). Afinal, era ela quem tentara a sua sorte com a minha personagem favorita, e, frustrada pela não correspondência, o acusara de vis intentos. Má!

Aqui ficam, entretanto, os professores mais e menos cool da escola (Nuno Sacramento e Rogério Sapinho):



Mas como há palavras que dizem mais que as imagens, partilho convosco duas frases que guardo na minha galeria de melhores recordações televisivas:

«Ó Pipo, que parvo! Sabes perfeitamente que dar beijinhos não dá sede nenhuma!», miúdo loirinho, aka Tiago, para o irmão, depois de este o ter visto aos beijos com namorada e lhe ter servido duas colas (no Bar dos Rebeldes, pertença da família de Pipo, não há álcool)

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«Mas setôr Nuno, eu amo-o tanto!», a dita Mónica para o professor de Matemática. Em "Morangos com Açúcar", as paixões são arrebatadoras, sim senhora, mas nada como manter o devido respeito pelas hierarquias e classes profissionais.

É caso para dizer: «Amo-te tanto, funcionário de uma repartição pública João!, ou «Não posso viver sem ti, empregado de balcão do café da esquina Manuel!».

Outro dia apanhei a RTP a fazer uma reposição de programas antigos... e lá estava o Carlos Alberto Moniz a cantar músicas de Natal, com as suas duas filhas, Lúcia e Sara Moniz. Esta entra, agora, em "Morangos com Açúcar"... gostava que o canal público tivesse mostrado algumas imagens do Pipo na mesma altura, já agora. O moço devia, então, ter acabado de tirar a carta de condução de pesados.

Bom Natal!...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Fim-de-semana ao comprido

Ao fim-de-semana o Sofá Verde muda de paragens. De trouxinha às costas, muda também de formato, e até de cor. Como pode o velhote mal jeitoso querer perder a tonalidade que em nada fica a dever à que se pode observar na imagem do BI deste blog? Pois é, há coisas que não se explicam, mas a verdade é que acontecem. E consigo trazem uma metamorfose ainda mais imperdível: ao Sábado e ao Domingo, a habitante do Sofá Verde vê mais do que quatro canais. Pronto, nem sempre. Mas pelo menos pode ver dezenas deles, o que representa significativa alteração face ao panorama lusófono da restante semana.

Este fim-de-semana, vi que capturaram o Pai Natal. Vinha coberto de fuligem e parece que lhe doíam os dentes. Pelo menos, muitas televisões -- até as estrangeiras! -- mostraram um doutor, de luvas, a espetar uma espátula nas goelas do pobre São Nicolau (em estrangeiro diz-se Sadd não sei quê). A tudo o senhor que nos traz prendas dizia que sim, com uma paciência de jó e umas olheiras piores que as minhas -- percebe-se, esta altura do ano não é fácil para ninguém, quanto mais para ele.





Lá em casa sempre me pregaram a tanga, desde pequenina, de que o Pai Natal não existe. As prendas, diziam os meus pais, eram eles que as compravam, guardando-as fora do alcance das minhas então, e agora, sapudas mãos. Gostava de ter visto a cara deles quando apanharam o pobre senhor, ontem à tarde. Ainda hei-de encontrar, numa qualquer gaveta cheia de caruncho, as listas de prendas e os recibos trocados entre o Pai Natal e os meus pais, há uns valentes anos. Bem, seja como for, acabo de ler que os EUA podem vir a condenar o Pai Natal à pena de morte. Não se compreende: tudo bem que é difícil ultrapassarmos o desmoronar das nossas ilusões, mas a cadeira eléctrica?... Com ou sem luzinhas a piscar?

Outro dos momentos altos do meu fim-de-semana televisivo passou pela primeira visita ao fascinante mundo da SMS TV. Quando uma amiga me contou que lhe tinham trocado os canais da TV Cabo e oferecido esta nova opção, pensei que se tratasse de um canal para sado-masoquistas. Mas não, é uma estação inteiramente concebida para as mensagens escritas que se transformaram nos bilhetinhos, amorosos e/ou indecorosos, dos nossos dias. Há gente que gasta 120$ (soa mais ordinário do que 60 cêntimos) para perguntar quem quer teclar consigo. É verdade. Mas também há programas, com cabeça, corpo e membros. Bem, para dizer a verdade, mais corpo que cabeça ou membros. Chama-se "strip", tem um símbolo que faria corar de vergonha os consultórios de mamografia, e apresenta três concorrentes, em pleno acto de despojamento de bens materiais. A menina que reunir mais votos pode ser vista, um pouquinho mais tarde, a tirar toda a roupa. E engane-se quem pensava que um strip acaba quando não há mais nada para ver: pelo menos na SMS TV, a vencedora ainda se fartou de roçar em todos os recantos do cenário, fazendo uma espécie de flexões de braços que revelaram ao mundo a sua flacidez evidente. Mas pronto, aí já a concorrente brasileira (a outra era, também, de terras de Vera Cruz, e a terceira de um país do Leste) liderava a votação com uma vantagem incontornável. A apresentar está uma menina de corpete rubro e olhos com cio. Dizem-me que foi o Tomás Taveira, e o seu Olho Mágico (é o nome da produtora), a escolhê-las. Um caso de coerência, portanto.

Fica ainda o nome por extenso, sugerido pelo batato desta batatinha, para a sigla sms: "Só Mulheres Strippers".

sábado, 13 de dezembro de 2003

O rei da festa

Hélder Reis é o nome do meu novo í­dolo. Novo, porque só há pouco tempo reparei no seu talento jorrante. Novo também, porque apesar de passar a vida entre pessoas com idade para estarem no Museu de História Natural, é um jovem rapaz. Apareceu na minha vida nas manhãs em que me levanto e, não tendo de ir trabalhar, me alapo no desconchavado sofá que dá nome a este cantinho. É um sidekick do Jorge Gabriel e da Sónia Araújo na indispensável Praça da Alegria (confesso-me fã do género, e só há uma coisa que me faz mudar de canal quando estou a ver um programa matinal: não, não são as vedetas musicais de meter medo ao susto. Nem os casos da vida para todos chorarmos de piedade, agarrados à almofada a deitar sumaúma. Nem sequer o senhor padre que, na TVI, nos diz para exclamarmos um «Mas que belo dia de Inverno!», sempre que saí­mos à rua e apanhamos com uma carga de água em cima, correspondente a três gripes e duas baixas médicas. São os números de comédia. Aquelas personagens que tentam desesperadamente ter graça, no contexto de um programa da manhã. Estão a ver o contra-senso? É como tentar adocicar um toucinho do céu, ou salgar um bolinho de bacalhau. Não funciona, nem é preciso, até porque a graça desses programas tem de ser sempre um nadinha espontânea, um nadinha involuntária, para fazer com que nos atrasemos e tenhamos de tomar banho à pressa antes de ir trabalhar).

Quem faz tudo isto e muito mais, muito bem feito (refiro-me a ter graça, não a tomar banho), é o tal Hélder Reis de que vos falava. O rapaz circula com impressionante à-vontade por entre habitats que fariam a delícia dos candidatos a qualquer eleição: mercados (o mais mítico dos quais, o Bolhão, tem presença gaiata e frequente), feiras, centros de apoio a idosos, associações recreativas para reformados. Com todos (e todas: as velhotas adoram-no) o moço fala, troca piropos («Ora essa, tem 95 mas ninguém lhe dava mais que 143!»), esbraceja, dança, sorri. Sorri. Acho que é esta a razão do meu fascínio pela personagem. Ao seu lado, a expressão "sorriso pepsodent" esmorece, cinzenta e moribunda. O Hélder Reis é um monumento de resistência e simpatia, sempre com a dentaura à mostra (e nem sequer a usa para ferrar alguns dos interessantí­ssimos doces que os entrevistados não se cansam de lhe pôr à frente). E parece, sempre, verdadeiramente interessado no que lhe contam. Acho isto formidável. A única pessoa que conheço e que ostentava um sorriso semelhante acabou na Mega FM (NT, se me estás a ler, desculpa! Gosto de ti na mesma).

Infelizmente não encontrei nenhuma foto do senhor para ilustrar esta ode ao seu trabalho. Mas digo-vos que, apesar de ser jovenzito, o rapaz usa, invariavelmente, pesada farpela: sobretudo de fazenda, e cachecóis finórios, que só por sorte (ou por estarem colados ao casaco?) não mergulham de cabeça nas caixas de sardinhas que lhe mostram, orgulhosas, as peixeiras com quem fala amiúde.

Outro dia, e provavelmente por estarmos no Natal, altura do ano em que a solidariedade por quem já não tem dentes aumenta a olhos vistos, apanhei o Hélder Reis na TV, à noite. Mas como é isto possí­vel, se o homem passa a vida a arreganhar a tacha, toda a santa manhã? É que à noite tinham-no destacado exactamente para o mesmo serviço.

Faz-me lembrar o José Carlos Malato, a quem cabe apresentar o programa da Antena 3 durante a manhã (sendo que aquilo começa às 7h, deve ter de se levantar a que horas? Lá pelas 5h?), e que à  tarde ouve emigrantes portugueses pelo telefone, e grandes artistas portugueses ao vivo, no palco do "Portugal no Coração".

Esta gente, mesmo que tenha uma família perfeita, daquelas dos anúncios a carros, deve chegar a casa e mandar toda a gente estar caladinha e quieta. Depois enfiam-se no quarto e tomam a poção mágica para a manhã seguinte. Ninguém pode ser assim tão simpático todo o tempo -- ou pode?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2003

Sal-si-chas



Sem menosprezo para todos os outros momentos que me têm feito companhia sempre que estou em casa, sem vontade de fazer nenhum, o primeiro post temático deste cantinho solitário tinha de ser dedicado ao melhor anúncio a passar, actualmente, na tê bê portuguesa.

Falo de um reclame (gosto do arcaísmo) da Teleshop, mas daquela Teleshop nacional, sem referência a 22 estados norte-americanos nem gente parecida com o Chuck Norris e a Pamela Anderson. Aquela Teleshop caseira, maneirinha, sobretudo direccionada a quem passa a vida na cozinha, e que muito da parte da tarde.

Como todos os anúncios da Teleshop, também este descreve o martírio que são os dias de qualquer espectador que não tenha ainda aderido às fabulosas pechinchas do serviço. Que passamos a vida a lavar louça, a misturar sabores, a fazer da cozinha um aterro sanitário, diz uma voz feminina, de dicção normalíssima e timbre agradável.

Mas eis que chega ela: não, não se trata da Filipa Vacondeus, mas sim da frigideira tripartida, uma espécie de prato de aperitivos que pode (?) ir ao lume, dando guarida simultânea a três tipos distintos de paparoca, sem que os odores e sabores desta se misturem.

Até aqui, muito bem: o anúncio prossegue em passo de corrida, com as imagens sedutoras de uma cozinha ilídica, resplandescente, na qual as refeições têm tão bom aspecto que nem o chavalo mais insurrecto torceria o nariz. Até que chega, pela primeira vez, a palavra que a senhora da locução não sabe dizer: «Com esta frigideira, pode fritar ovos, jal-chi-chas...», promete ela.

Ora, todos temos os nossos problemas de dicção, mas o desta arauta é especialmente hilariante, quanto mais não seja porque se repete mais lá para a frente, aquando da promessa de oferta de um utensílio para cortar mil e uma coisas. Sim, jal-chi-chas incluídas, apesar de, à segunda, a senhora fazer uma micro-pausa antes de tentar pronunciar a palavra proibida. Não resulta. E ainda bem. É um momento único na nossa televisão, tão falha de humor. Dá muito na TVI, antes do fabuloso "Quem Quer Ganha", da Iva Domingues. Também gosto dela, sobretudo quando liga para o estúdio algum concorrente de Braga, cidade da qual a moça é natural. Mas essa paixão fica para outras núp-ji-as.

Eu não vejo televisão

Pronto, nem o sofá verde de que aqui falo é aquele que estou há horas a querer colocar como imagem, no BI do blog, nem a televisão que me animou a infância é a mesma que, ao longo das últimas semanas, tem servido para preencher todos os minutos que a minha preguiça impede de serem minimamente produtivos.

Mas o que conta é mesmo a intenção, e a minha é a de partilhar com os dois leitores e meio deste blog (o meio sou eu mesma) o mundo fascinante de personagens que (não) se escondem na caixinha que mudou o mundo. Tenho um pressentimento que este espaço vai ser visto, pelos quatro olhos dos seus dois leitores, como um blog “para dizer mal”. Mas garanto-vos que a gente que me fez trair a jura de nunca ter um blog é merecedora de aplauso: por me fazer rir, por me fazer pensar «como é possível?!», por me dar a impressão de que até eu (!) faria melhor. Palavra de meia (de leite).

Em pequena, o meu Avó vinha sempre ter comigo, quando queria saber a programação dos então dois canais. O meu dia favorito era a Quarta-feira, por ser nessa altura que chegava ao quiosque do Sr. Manel a “TV Guia”, então arredada, como toda a humanidade, das falsas vedetas dos reality shows. Séries, filmes e novelas faziam as minhas delícias.

Ao crescer, passei por uma casa com ditadura televisiva, por outra sem televisor. Troquei a imagem pelo som, tornando-me fanática pelos programas de autor que então pululavam na rádio, e que agora, graças a Deus e ao serviço público, começam a regressar. Recentemente, tive uma recaída: recebi, de presente, um televisor lindíssimo, e, como naquelas brincadeiras e encostões que os concorrentes do Big Brother dizem sempre não querer dizer nada, reatei a relação com a TV. Que decorre no sofá verde desconchavado, propriedade da minha senhoria e adversário de costas direitas e olhos atentos aos quatro canais de que disponho. Não há (quase) nada que veja e me faça pensar: «Que bom que isto é, que bem feito!». Não: às vezes dá-me vontade de rir, outras de chorar, mas distrai-me e inspira-me... nem que seja para escrever umas linhas sobre estes heróis por cantar. Não saia do seu lugar!

Tempos idos

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