sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Ainda...

Sei que estou a ficar (ainda mais) repetitiva e enfadonha, mas ainda penso nisto...





Será que há linhas de ajuda para pessoas como eu?...

sábado, 23 de setembro de 2006

NY, duas semanas mais tarde

Aos 28 anos, sem estar à espera nem fazer nada por isso, fiz algo que imaginava só ser possível muitos anos e muitos subsídios de férias mais tarde: atravessei o Atlântico e visitei, pela primeira vez, a América.

Foram três dias com um serviço (entrevista a careca famoso) pelo meio, mas chegou para me deixar encantar por uma cidade que é muito mais do que isso. Como tentei explicar abaixo, se Londres é um elegante fogo de artifício, Nova Iorque, com os seus ziliões de quilómetros (sobretudo em altitude), cheiros (muitos deles horrendos), ruídos (a toda a santa hora) e pessoas em infatigável trânsito, só pode ser comparada a uma explosão atómica. Caminhar pelas ruas de Manhattan é um atentado aos sentidos, permanentemente despertados pelo tamanho das limusines, ou pelo aspecto sou-boa-demais-para-o-Sexo-e-a-Cidade das transeuntes mais ricaças, ou pelos irrecusáveis pretzels, bagels e companhia, ou ou...

Fiz Central Park quase todo a pé, num Domingo de manhã, descobri a mal-cheirosa e frenética Chinatown por acidente, à noite, e logo de seguida derreti-me com os aromas e as luzinhas meigas de Little Italy. Um São João em plena Nova Iorque? Sem ter posto lá um dedinho de pé que fosse, já sabia, como toda a gente, que Nova Iorque é muitas cidades ao mesmo tempo. Mas a confirmação, na prática, de tal lugar comum deu-me adrenalina para continuar a calcorrear as ruas da Big Apple, ignorando dores nas pernas e as horas tardias que já seriam em Portugal.

A cada passo há uma «photo opportunity» - e eu que só levei um cartão na máquina digital... A cada esgar mais desorientado aparece alguém que nos pergunta se estamos bem, se precisamos de ajuda ou direcções - sem ser preciso pedir. Isto aconteceu várias vezes, quer nas zonas mais abastadas da cidade quer nas que mais se aproximam da nacional «xungaria». Quando eu e o meu colega procurávamos a rua do CBGB's, por exemplo, um velhote veio ter connosco, a perguntar o que queríamos daquela zona. «É que aquilo agora é só winos», alertou-nos ele. Que tivéssemos cuidado.

Esta disponibilidade permanente é, talvez, a impressão mais forte que trago de Nova Iorque. Explicaram-me que, por lá, os empregados de mesa não ganham um salário, mas sim um seguro de saúde e o que recebem em gorjetas. Será isso que os faz cumprimentar toda a gente com um sorriso e esmerar-se no atendimento? Provavelmente. Mas acredito que existe, naquela maneira de ser nova-iorquina, uma apetência muito especial pela rapidez, pela eficácia, pelo ser «despachado» e expedito que supera a compreensível corrida ao dólar. A cidade e todos os seus milhões de habitantes, de todas as cores, tamanhos e idades (vi muitos idosos a passear, auxiliados por complicados derivados de bengalas), parecem viver com uma ideia em mente. Ou antes, com uma missão. E é essa missão que mantém Nova Iorque a vibrar, a zumbir, a fazer tique-taque 24 horas por dia, como um gigantesco coração.

(queria pôr aqui umas imagens, mas o blogger não está a colaborar...)

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Nova Iorque

Já contei as histórias milhões de vezes a pessoas diferentes, mas ainda não me ocorre nada de certeiro nem sucinto para escrever sobre Nova Iorque.

Socorro-me por enquanto de imagens.

Se Londres é isto...



... Nova Iorque só pode ser comparada a isto:



Mais a qualquer momento...

Chico

Hoje comecei o dia a ver um dos DVDs da nova trilogia do Chico Buarque (a do Amor, Palavra e Futebol).

Por razão alfabética ou qualquer outra, peguei primeiro no do Amor. Diz o homem, numa das muitas declarações que polvilham o documentário, que uma letra de canção não é - a nível formal, de conteúdo e intenção - a mesma coisa que literatura.

Pois não, mas o que dizer de letras destas?

«Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você»

É em alturas destas que uma pessoa sente um certo calorzinho no coração por falar Português.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Depois do drama abaixo documentado, este blog prossegue com a sua programação «normal».

Uma estudante de Comunicação do ISCSP (a mesma faculdade que eu e muitos dos seis leitores deste blog frequentámos) fez um trabalho de fim de curso sobre... crítica musical!

Que bom, ver alguém ignorar os temas - muito populares no «meu tempo» - do efeito pernicioso dos desenhos animados nas crianças ou da fisionomia do escaravelho da batata (um destes é mentira, não vou dizer qual).

Pelas respostas dadas pelo Jorge Manuel Lopes e partilhadas no seu blog, deve ser um trabalho bem interessante de consultar, o da Ana Luzia. Deixo aqui a resposta que mais me encheu as medidas:

«15 – Há alguma coisa que considera que deve mesmo ser mudada ao nível da crítica musical no nosso país?
Quem faz crítica musical devia ouvir menos música só para registar mentalmente que ouviu música. Devia ouvir música melhor. Devia ser menos reverente em relação ao passado. Devia ler mais sobre música. Devia ler mais sobre/ envolver-se mais no que nos rodeia (socialmente, politicamente, culturalmente) que não é música mas que tem tudo a ver com música. Devia ter menos medo. Devia ter mais recursos lexicais. Devia ter mais imaginação. Devia ser mais jornalística e, ao mesmo tempo, menos funcional. Devia ser simultaneamente mais subjectiva e objectiva. Devia ouvir música nova mais e melhor. Devia pensar a música portuguesa mais e melhor.»

Antes e Depois (1990 - 2006)

Procedimento habitual pós-derrota importante deste senhor, quando era miúda:

- chorava, ficava ensimesmada no quarto, escrevia no diário

Mulher feita, assisti Domingo à despedida do atleta, após 21 anos de carreira.

- chorei, tirei a roupa da máquina e pendurei-a no estendal, fiz o jantar, fui a um concerto em trabalho e, passados dois dias, vim escrever no belogue

Não há nada como ter que fazer para afastar os macaquinhos do sótão.

Mas continuo algo inconsolável, sim. Como diz a amiga Cibele, é como se uma parte de nós desaparecesse. Como diz o amigo moonshiner, citando os grandes The National, «all you've gotta do is be brave and be kind».

Entretanto, uma dúvida: será o homem um génio (também) da comunicação ou este discurso já estava pensado? É formalmente perfeito e absolutamente delicioso para qualquer fã. Como seguidora de longa data, não podia pedir um agradecimento mais bonito ou sentido. Mesmo sem as lágrimas, aqui fica a transcrição...

«The scoreboard says I lost today, but what the scoreboard doesn't say is what it is I have found. And over the last 21 years, I have found loyalty. You have pulled for me on the court and also in life. I've found inspiration. You have willed me to succeed sometimes in my lowest moments. And I've found generosity. You have given me your shoulders to stand on to reach for my dreams, dreams I could have never reached without you. Over the last 21 years, I have found you. And I will take you and the memory of you with me for the rest of my life. Thank you.»

O discurso e o pranto de que se fala, no link do youtube abaixo.

A prova de que estamos em sintonia, aqui:

«I was sitting there realizing that I was saying goodbye to everybody out there, and they were saying goodbye to me. It's saying goodbye. You know, it's a necessary evil. But we were getting through it together. That felt amazing.»

Photobucket - Video and Image Hosting

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

As verdadeiras estatísticas

Ficam as estatísticas oficiais daquele que, afinal, não foi o último jogo de Andre Agassi.

-> muitas horas de espera até à uma e meia da manhã, hora a que começou a partida com Baghdatis

-> 14 posições no sofá, procurando o equilíbrio impossível entre conforto, boa visibilidade para o televisor e manter-me acordada

-> sete mordidelas de melga

-> um tubo de Fenistil Gel

-> 249 zumbidos de melgas rasando os meus ouvidos

-> zero melgas esmagadas

-> 21 anos de carreira passados em revista num jogo

-> dois sets fáceis, um fácil mas para o outro lado, e dois de puro sofrimento

-> um tenista de Chipre que não merecia - tal como Blake, em 2005 - perder o jogo

-> quatro horas de nervos, génio, coragem, caimbras e até teatro

-> 24 mil pessoas a puxar para o mesmo lado, nem sempre com civismo, mas com paixão inabalável

-> dois match points, um dos quais a valer

-> duas lendas em court (no final, quando John McEnroe entrevista o vencedor)

-> um sorriso único, como diz o amigo JG

-> vários sms de comentário ao jogo e chacota com comentadores, trocadas com o «vizinho» acima referido

-> uma hora e meia de «sono» antes de um acordar complicado

-> uma razão maior para, afinal, ter sido boa ideia adiar para este ano, para este torneio, para esta cidade, o último adeus

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Porque sim

Deus é de Mafamude. Às vezes é bom acreditar que sim.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Andre

Pode ser hoje, amanhã ou até depois. O Andre Agassi está em prova no Open dos EUA e, apesar de ainda ontem o ter visto recuperar de um 4-0 no terceiro set, vai cair um dia destes. Nada de novo: de quedas se fez a carreira deste homem a quem o comentador da Eurosport chamou «cabrito de 36 anos» (!). O problema é que esta não será uma queda qualquer: é A queda, a derradeira, a que porá termo a uma carreira de 20 anos.

Nenhum tenista conseguiu passar pelo número 1 do ranking em três décadas diferentes, nenhum venceu, na era do open, todos os torneios do Grand Slam em superfícies distintas. Mas a razão que me levará às lágrimas um destes dias não tem, como é natural, ligação directa a números, recordes e façanhas «técnicas».

Tinha acabado de fazer 12 anos quando vi o primeiro jogo do Andre Agassi. Não conhecia as regras do ténis, não me interessava por desporto e estava longe de imaginar que ali, no ecrã do televisor, na minha casa em Santo Ovídio, estava uma paixão para toda a vida. Ao contrário do que aconteceu com tantos dos ídolos e heróis que tive na adolescência e arranque de idade adulta, o menino cabeludo que se fez homem careca nunca abandonou o meu coração.

Era uma criança quando ele perdia jogos improváveis ou finais importantíssimas e chorava como se a carreira do «kid de Las Vegas» tivesse chegado ao fim (tantas vezes, e de forma tão precoce, anunciado...). 16 (!) anos volvidos, continuo a emocionar-me com a forma e a força que mostra no court. Como consegue virar um jogo do avesso, meter a bola onde qualquer outro nem se lembraria de ser possível, como retorna ao campo aos saltinhos de entusiasmo (daí a história do cabrito, valha-me Deus), perante o histerismo de um público gradualmente seu.

Nem sempre o seu talento foi reconhecido, nem sempre as gentes de Nova Iorque – já que estamos em tempo de US Open - viram nele mais do que um glamouroso tenista, um tudo-nada estouvado. Surpreende-me a unanimidade que se gerou nos últimos anos em seu redor: lembrar-se-á esta gente dos epítetos que caíam sobre os ombros do rapaz aos 20 e poucos anos? Falhado, nunca ganhará um Grand Slam, tenista de Hollywood... Sem nunca perder o carisma (nem que tentasse o conseguiria), Andre Agassi deu a volta a isto e muito mais. Caiu para número 144 do ranking e regressou para ganhar (mais) grandes Slams, triunfou em Roland Garros, ao contrário de quase todos os seus parceiros de grandeza (com Sampras à cabeça), tornou-se um ícone transversal, não perdendo no entanto a ligação à casa-mãe: o desporto que o pai o pôs a jogar mal reparou que, em bebé, Andre seguia de forma impiedosa a bola posta a balouçar por cima do berço.

Em 16 anos, o Andre Agassi tornou-se parte integrante das minhas rotinas. Nem todas boas: lembro-me de três ou quatro discussões com o meu pai, à conta de jogos (dele) e fitas (minhas), o que é especialmente relevante pois se eu tive uma dúzia de discussões a sério com o meu pai em 28 anos de vida, é muito. A minha mãe começou a torcer pelo Sampras para equilibrar as forças lá em casa. Tive, durante 12 anos benza-o Deus, um rouxinol chamado Agassi. Descobri dezenas de revistas teen e outras maroscas para me manter a par das desventuras light do homem, numa altura em que a Internet estava longe e encontrar, em Portugal, alguém que tivesse um tenista americano como ídolo era mais complicado que conhecer alguém com três rins.

Muitas das minhas memórias mais divertidas (e das mais dramáticas, também) remontam a jogos do homem. Wimbledon 92 em primeiro lugar, é claro: até fiz (e cumpri) a promessa de que, se ele ganhasse a final (o que era visto como uma missão impossível), ia duas vezes à missa naquele Domingo (vivia frente à igreja). Os jogos da Taça Davis. A milagrosa vitória em Roland Garros, à qual assisti, em sofrimento, com as minhas amigas, em tarde de aniversário. A sensação de que tudo é possível (para o bom e para o mau…), nem que o resultado de um parcial pareça definitivamente arrumado. Adivinhar as jogadas, desejar a reviravolta, torcer-me toda no match point.

Por causa do Andre Agassi passei a gostar de ver ténis, e por arrasto mais uns quantos desportos. Aquando dos Masters de Lisboa, em 2000, não desperdicei a oportunidade de o ver jogar ao vivo. As minhas amigas não desperdiçaram a oportunidade de me acompanhar e apoiar em tão histórica ocasião. Dias antes da final perdida contra o Kuerten, ia a entrar no Atlântico quando vi que havia uma sessão de autógrafos e jogatana com os miúdos, num pavilhão ao lado. Ia morrendo esmagada mas consegui furar entre a multidão e chegar à fala / ao aperto de mão com o homem. Não sei onde está o autógrafo, mas o importante é que aconteceu: mostrei a minha devoção em meia dúzia de palavras e saí de lá aliviada. Marquei um pontinho no gigantesco mapa da vida do homem que acompanhara toda a minha juventude.

Hoje, amanhã ou depois, um dia destes, tudo isto será de uma vez por todas Passado. O senhor vai dedicar-se à família (um verdadeiro conto de fadas da vida real…), à fundação de caridade, quem sabe a treinar e apoiar novos talentos. Daqui a uns anos teremos (?) os petizes Graf-Agassi a passear a herança genética pelos courts. Até lá, ficam as memórias. É absorver tudo o que o homem ainda consegue mostrar, nos próximos dias.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Amor - Ódio

No primeiro andar, tudo brilha, tudo cabe, tudo cativa.

São mesmo estes armários, estas estantes, estes cestos e candeeiros e bengaleiros e paninhos do pó que quero para a minha vida. Anoto, vou levar. Ainda por cima é barato.

No andar de baixo: não há. Stock esgotado. Custava muito avisar lá em cima?

Quando há, pegamos, pagamos e seguimos para o transporte & montagem. É caro, as filas não andam, os computadores dos funcionários encravam. No dia da entrega, atrasam-se, trazem coisas que não são bem aquelas que compramos, esquecem-se (!) que tinham ficado de passar lá por casa. Às vezes temos de ligar e perguntar por onde anda a mercadoria, que por acaso até já está paga - e afinal nem é tão pouco dinheiro como isso, quando ao preço base juntamos o de todos os acessórios que não sabíamos mas são vendidos à parte (e o acessório de um guarda-fatos, por exemplo, são os puxadores).

Acho que nunca tinha entendido bem o alcance da expressão «amor-ódio» até conhecer o IKEA.



(agora a minha esperança é que algum big shot da empresa leia isto e me ofereça um vale duns 1000 euros para gastar em Alfragide e, já agora, uma viagem para dois, com hotel e refeições, em Estocolmo)

Be generous



Era o meu favorito. A par do Doug Ross, do John Carter e do Peter Benton (OK, nunca me consegui decidir muito bem, dentre a riqueza do elenco original). Quis (o actor) experimentar novos desafios profissionais, morreu a personagem que ao longo deste anos se tornou um velho conhecido.

Quando era miúda chorei um fim-de-semana inteiro quando, num episódio da Missão Impossível, morreu uma das agentes. Achava sempre que aquele aviso inicial («se algum de vocês quinar, a gente lava as mãozinhas», etc) era só para despistar, e afinal a moça lá sucumbiu numa qualquer missão. Não eram imortais, nem querer na tela.

A morte do Doutor Greene foi coisa mais anunciada; um tumor no cérebro que jogou às escondidas com o médico durante um ano levou-o, eventualmente, às seis e quatro de uma manhã havaiana. Curioso como uma série que se passa quase sempre no hospital (frenético, caótico, cheio de vida - e morte), ou quanto muito no exterior, mas à noite ou em sítios escuros, se mudou para uma praia solarenga e luminosa para aquele que foi, provavelmente, o seu episódio mais sombrio de sempre.

O realismo da coisa (todos os nós que ficam por atar, a filha que até ao suspiro final do pai se comporta como aquilo que é - uma parvinha de 14 anos) e um breve mas incisivo flashback final provam que, ao contrário do que eu inicialmente pensava, se calhar não havia outra maneira de assinalar a despedida do Doutor Mark Greene. Se calhar, era mesmo preciso este sofrimento todo, este peso imenso que por segundos parecia real. Uma personagem daquelas não se manda embora com a desculpa de uma migração ou de um emprego noutro estado.

Para sempre ficará a imagem do médico, em suave delírio nos derradeiros segundos de vida, imaginando-se a deambular pelos corredores do hospital (para ele, símbolo do trabalho de uma vida, e não de doença ou morte) subitamente vazio. Ou o episódio anterior, em que o homem, já com poucas forças, insistia em continuar a trabalhar e dava de caras com muitas das pessoas com quem se cruzara até então, desde a mulher com a unha encravada do primeiro episódio ao sem abrigo que confia apenas naquele médico para impedir que os enfermeiros malvados o levem para longe do seu inseparável carrinho do lixo. Ou ainda a recusa em ver a sua vida prolongada pelos tratamentos que ele próprio tanta vez administrou aos pacientes, preferindo a morte «ao natural», tentando viver aqueles poucos de dias como se nada fosse. «Be generous» foi o último recado do Mark Greene à filha adolescente. Foi bonito.

Vá lá que, depois de tanto drama, mudei de canal e vi a maior badalhoca da pop actual (Fergie) a conspurcar o nome de Londres (e a Union Jack, pregada numas cuecas) na sua primeira musiqueta a solo. Pude passar rapidamente da choramingueira à maledicência, uma mudança muito bem recebida na altura. E hoje dá o House na TVI. Sinto-me como aquelas pessoas a quem morre um animal de estimação e dizem que não querem mais nenhum: não voltarei a ganhar afecto a um médico de uma série de televisão.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Londres

Cada vez que vou a Londres acho-a mais pequena - no bom sentido. Como se, paulatinamente, todas as peças que na primeira visita me pareceram confusas e distantes entre si se juntassem agora num mosaico cada vez mais bonito, compreensível, portátil.

Na semana passada voltei a Londres. Tal como no ano passado, estive pouco mais de 24 horas na cidade, trabalho oblige!, mas foi o suficiente para tirar várias notas mentais que ainda não partilhei por aqui graças a alguma preguiça. Mas Londres merece, como tal cá vai...


1. Londres sabe receber. Entro no comboio para o centro da cidade e está a revista do aeroporto de Gatwick à minha espera, com o Gael García Bernal na capa. Chego ao pequeno hotel de Camden onde viria a pernoitar e descubro que, naquela noite, há projecção de um dos meus filmes favoritos de sempre, "Shallow Grave". Na mesma tarde, dois polícias (um preto, outro branco, ambos extremamente prestáveis e divertidos - tal e qual como nos filmes) reparam numa portuguesa à nora no metro e dispõem-se a ajudar-me, sem que eu lhes pergunte nada. Pouco depois, um senhor entabula conversa comigo à conta das fotos que ia tirando, rua fora, com a descartável comprada no aeroporto, e ficámos uns bons minutos em amena e civilizada cavaqueira. No dia seguinte, vejo um polícia de moto, parado nos semáforos, a avisar duas turistas que corriam rua fora - os guardas a cavalinho iam passar no outro sentido. Os funcionários dessas malévolas corporações (Starbucks, para quando os teus apetecíveis cafés em Portugal, para quando?...) que inundam a cidade não nos atendem sem, na despedida, nos desejarem um bom dia, e parecem sinceros. Há uma sensação de ordem que não faz da cidade um sítio frio, pelo contrário. Em Londres, toda a gente parece estrangeira e, paradoxalmente, local.

2. Um dia é suficiente para encontrar muitos cromos. Antes de regressar, almocei num restaurante multilingue perto de Westminster. A empregada que serve às mesas na cave é supersónica: quando está por perto, ouve-se falar/gritar Italiano, Inglês, Português e voam pelo ar piropos do «bella» ao «doutore». Quando sobe ao primeiro andar, a sala fica subitamente vazia e morta. Os seus passos apressados, escadas abaixo, antecipam o retorno da energia e do vendaval linguístico à sala. Parece a Carla do "Cheers", jeans justas e sapatilhas brancas, mas em bonito. Não chego a perceber de que nacionalidade é mas despede-se com um «obrigado». Não é isso que me deixa com saudades antecipadas, mas a jacket potato também estava boa.

3. No centro fino de Londres, há dezenas de fashion statements ambulantes. A pose, a roupa, a simples forma como pisam a calçada lembram-nos os incontáveis movimentos estéticos, sociais ou musicais que a cidade já viu - ou já fez - nascer.

4. Ninguém tem medo da chuva. Eu também faço de conta que não me afecta, mas ainda deito um olhar furtivo às banquinhas de rua, esperando encontrar algures um guarda-chuva chinês a preço de amigo (cinco libras não só cinco euros, cinco libras não são cinco euros - luto comigo mesma para não me esquecer desta verdade básica mas essencial).

5. De todos os não muitos sítios onde já estive, Londres é o que mais se assemelha ao coração do mundo. Na sua grandeza, consegue ser - cada vez mais, para mim - pequena e acolhedora, solidária e hospitaleira, excitante mas amigável. Que atentem contra esta cidade e este ideal magoa-me (quase) tanto como se a bomba rebentasse na porta ao lado. Sem ofensa para os corações de mundos alheios.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Elementar, meu caro House

Um médico mau como as cobras, mas que consegue descobrir coisas do arco da velha e deslindar mistérios inacessíveis ao resto dos mortais. Uma equipa de outros médicos («lacaios», chama-lhes ele) relativamente bem intencionados e bem apessoados, mas cuja nabice é exposta episódio sim, episódio sim, sempre que o seu guru misantropo entra em acção. Um misto de série de hospital (doenças, desgraças, casos da vida) e série de detectives (deduções, silogismos, entradas clandestinas em casa dos pacientes), com música à maneira (desde blues ao meu ryanzito) e ambiente um tudo-nada sombrio. Como é que eu não me havia de tornar fã desta bodega?



Eis-me regressada aos meus tempos de fanática por séries, e muito por causa do gigantesco actor que é o inglês Hugh Laurie. Na pele (americana) do infalível Dr. Gregory House, o Mourinho dos médicos - grisalho, sarcástico, amargoso - encanta as minhas noites de Segunda (Fox) e Quinta (TVI).

E pensar que tudo começou num Sábado à noite, quando a fazer zapping achei graça a que, numa série passada nos EUA, se falasse do Instituto de Medicina e Higiene Tropical, do qual fui vizinha enquanto andei na Faculdade... Oh yeah, os yankees levam a sério a pesquisa para escrever guiões.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Dias Assim

Pelo menos até agora, este dia, para mim, tem sido assim:



( obrigada à grande - literalmente, grande - Zuca Maria pela ilustração )

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Epifania

Eu não estava preparada para aquilo. No jornal, dias depois, o João Bonifácio chamava-lhes «cometa». Aqui ao lado o Vítor também ficou impressionado. No Fórum Sons não faltaram elogios e expressões bem certeiras para descrever o que se passou em Sines. Eu, quase duas semanas depois, continuo à procura das palavras adequadas.

Em teoria, o que vi foi um espectáculo de um grupo do sertão brasileiro, com um vocalista, três percussionistas e um guitarrista. Na prática, foi bem mais. Não estava à espera de nada e saí com tudo - sobretudo, com uma vontade imensa de conhecer mais, ouvir mais, ver mais. Comprei, à saída do castelo onde decorre o festival, um dos CDs da banda, que como temia não é tão violento como o concerto. Mas vale. Alguém diz no fórum dos moços que às vezes não nos fazia nada mal, a nós portugueses, beber um pouco mais da cultura que se estende do outro lado do Oceano, em Português tão português como o nosso.

Sob a influência das letras - arrebatadas, estranhas, singulares - que ouvi em Sines, não posso concordar mais. E que figura é aquele Lirinha, de fato branco, mangas compridonas e gravata vermelha, fazendo-se ao palco como se a sua vida dependesse daquele concerto, perdendo-se no frenesim e no trovoar das percussões com um esgar completamente demente e perverso?

Saí de Sines com uma nova banda preferida, e tendo em conta que, embora vários amigos me tentem a pensar o contrário, nunca entrei completamente no espírito do festival, isso conta muito. Quase tudo. Falta dizer que muita gente odiou. Acho que faz todo o sentido. Agora não descanso enquanto não voltar a pôr-lhes a vista em cima.

My head's like a kite

Além da melancia e do Fenistil Gel, Verão sem isto...



... não é bem Verão. É o segundo post deste tasco sobre o mesmo disco, mas é capaz de não haver melhor para vir de comboio até Paço de Arcos e não ter (muita) inveja (mortal) das pessoas que se banham e jogam às raquetas e sorriem enquanto eu venho trabalhar. Shines, i lub you!

Coisas simples

Nestes dias de canícula, conta-se em poucas palavras a minha vida.

Durante o dia, só preciso de



À noite, quando acordo com pernas, braços e dedinhos dizimados, a palavra de ordem é



Fosse a enfermeira Fátima tão engenhosa como estas melgas e tinha-se poupado um banho de sangue na consulta de Medicina do Trabalho, ontem. Cinco minutos com a seringa enfiada no meu braço, à procura da veia «marota» que teimava em escapar-lhe, para depois deixar cair o tubinho com o sangue ao chão. Imagino o que não terá pensado o rapaz que entrou a seguir, para fazer análises também, vendo o chão tingido de sangue...

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Help

Há muitos comportamentos que tendo a compreender e/ou desculpabilizar nas pessoas. Maltratar, negligenciar e abandonar animais não é um deles. Ajudem a União Zoófila.

( hoje no Público:

Mais de 500 animais abandonados este ano na União Zoófila

Associação vive nova situação preocupante, com números recorde em termos de abandono e falta de verbas para fazer face às despesas )

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

2 de Agosto

Muitos parabéns a duas das pessoas mais importantes para mim: a minha amiga Cibele (que hoje chega à bela idade de 30 anos) e a minha Avó Maria, uma jovem de 95.



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