quarta-feira, 25 de agosto de 2004

A mulher mais antipática do mundo

A mulher mais antipática do mundo vive aqui à minha beira.

Em tempo de férias, o Senhor Zé, dono do café mais próximo da barraca onde trabalho, que cobra balúrdios por um lanchinho e tem um BMW, fecha o seu estaminé. Ficamos nós, trabalhadores esforçados mesmo em tempo de Verão, obrigados a calcorrear uma rua inteira até chegarmos a um outro estabelecimento (onde, por acaso, no ano passado ouvi um empregado contar ter apanhado, com os dentes, alguns «cabeçudos», ie peixes pequeninos, num mergulho na praia).

Aparte os comentários desse senhor, que costuma também contar a todos os fregueses como bebe um litro de leite («compro no Lidl, que é mesmo ao lado de minha casa!») todas as noites, antes de ir dormir, está-se bem naquele café-substituto. Excepto à entrada, ou à saída, quando nos deparamos com a Mulher Mais Antipática do Mundo.

Ela toma conta da caixa, onde há que ir pagar a despesa. E não há dia em que esboce um sorriso, balbucie um obrigado ou até um fugidio boa tarde. Nem aquelas palavras que nos saem inconscientemente (um «com licença» quando queríamos dizer «santinho»...) se ouvem por detrás da caixa. E ela não é mouca nem muda, pois o preço a pagar sabe bem dizê-lo. É apenas antipática, muito antipática. Nem se trata de ter um ar triste, que dessa estirpe costumo até ter pena. É carrancuda, sisusa, de cara inevitavelmente fechada.

Fico nervosa e mal-disposta quando sei que tenho de a enfrentar, pois não consigo evitar os mínimos da boa educação: os obrigados e bons dias que caem, invariavelmente, em saco roto.

Atribuí-lhe o prémio de Mulher Mais Antipática do Mundo quando ouvi colegas a queixarem-se do mesmo. Afinal, não é só com a minha cara que ela não engraça. Acho que é mesmo com a Humanidade em geral.

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Adeus, até sempre



A Batatinha não abriu este tasco para falar de música, mas hoje, à hora a que me levantava, morreu a guitarra portuguesa.  

Obrigada, Carlos Paredes, por tudo.













quinta-feira, 1 de julho de 2004

Outras coisas tristes

Em dia de alegria nacional, vamos recuperar o texto triste que conseguiu alguma reacção da vossa parte, seus portugueses típicos, amantes da prosa com a lágrima ao canto da vírgula.

Diziam o João e a Marlene que se identificam com esta coisa do tempo (e do transporte) perdido, das pessoas cujo dia ficou lá trás, e que hoje, pelo menos a nós, nos dão a impressão de andarem a marcar passo, de forma ainda mais flagrante e denunciada que o resto da humanidade.

Lembrei-me, a propósito dessa conversa, de um dos meus momentos favoritos do "Alta Fidelidade", livro de Nick Hornby que recomendo a todos os fanáticos por música. Dizia ele, numa das suas reflxões motivadas por dor de corno e sentimento de culpa, que às vezes olhava para as fotos de quando era criança e, à típica boca do "tão querido", se juntava um constrangimento, um remorso indizível.

Como se olhasse para a foto e se visse com sete anos, vestido à cowboy e a apontar a pistola para a objectiva, e tivesse vontade de dizer àquela sua persona em ponto pequeno: «Fica aí, em 1985 [adaptei para o meu caso], não vale a pena cresceres, that is as good as it gets».

E acrescentava o adorável Rob Fleming ter a certeza que, se o menino pudesse saltar da foto para os dias que atravessava, enquanto adulto, rapidamente fugia para aquele momento do passado, desagradado pelo flash do futuro.

Também eu tenho uma foto dessas à cowboy (tomaram-me por um rapaz, coisa que muito levei a peito e nunca esqueci), mas felizmente faço por não querer voltar para ela.


segunda-feira, 28 de junho de 2004

Diga bom dia...

Todas as manhãs, quando entro às 7h00, passo por uma mercearia antes das Amoreiras, e reparo numa rapariga que, tal como eu tenho por hábito viajar sempre naquele autocarro, encontro invariavelmente a fazer a mesma coisa, à mesma hora - quer chova ou faça sol.

Estou eu quase a chegar ao trabalho e ela a acartar caixotes de fruta, e outros produtos, de uma camioneta para a mercearia, ou da loja para a rua. Tem sempre o cabelo apanhado no cocoruto, o avental preso atrás das costas e um ar relativamente despachado para aquela hora da manhã. Mal sabe a moça que, enquanto se atarefa a pôr ordem à mercearia, há alguém que repara que, mais uma vez, ela não trocou o trabalho madrugador pelo sono merecido, e que, mesmo sem cartões de banda magnética e modernices afins, continua a marcar o ponto nesta vidinha de labuta sem recompensa à vista, qual formiguinha sem costela de cigarra.

No autocarro de regresso a casa, avisto também muitas vezes um nativo do Casal Ventoso, um daqueles toxicodependentes a quem é difícil, se não impossível, tentar adivinhar um passado, uma família, um momento em que tenha sido feliz, limpo, livre. Às vezes olho para estas pessoas e tento ver além das crostas, da pele retinta, dos cabelos feitos ninhos de rato. Algum dia, todas eles terão sido felizes, ou pelo menos motivo de felicidade para alguém. Todos tiveram o seu dia, o seu momento.

Não sou moralista em relação às drogas, mas duvido que alguém gostasse de ver um filho acabar no Casal Ventoso, com chagas em sangue e um olhar de eterno morto-vivo.

Há sensações que nenhuma demolição ou limpeza de conveniência conseguem afastar. A sensação de que a vida, o que quer que seja, está a passar ao lado, numa linha de comboio paralela, num daqueles transportes que nunca conseguimos apanhar, quer seja por chegarmos atrasados, quer seja porque, se calhar, não estava escrito que o apanhássemos. Tenho este sonho muitas vezes.

Este post não era para ter saído tão sério, mas aconteceu.

Falta dizer que Rui Zink, no seu último livro, põe Jesus Cristo como vítima de uma depressão nervosa com dois milénios de duração, a viver, completamente alienado, no Casal Ventoso. E que o junkie que eu vejo tantas vezes é estranhamente parecido com o Devendra Banhart, um dos mais badalados trovadores da actualidade.

Se estiverem perto de um qualquer centro de cultura ró (loja de discos, BD, livraria, bares...) vão buscar a Mondo Bizarre, que fala nesse e noutros senhores, e com a qual tive, desta vez, a sorte e a honra de colaborar.

É grátis, não deixem passar (est)a oportunidade.

Consumido

A batatinha tem um vizinho da frente que sabe mais sobre os seus hábitos (nomeadamente, horários quotidianos e companhias com quem os pratica) do que muitos dos que lhe são próximos.

O senhor, que tem idade e diâmetro consideráveis, pendura-se da janela todo o santo dia (e noite), sabendo assim que tão depressa saio para trabalhar às seis e tal, como regresso já a lua vai alta (e as baratas se escondem por trás da porta do prédio - pormenor gore, mas verdadeiro).

Regra geral, o vizinho faz-se acompanhar de uma fileira de roupa a secar, num estendal que lhe dá mais ou menos pela cabeça. Roupa interior e camisolas da mesma espécie são o seu forte, o que se explica se lembrarmos que o nosso herói é pouco dado a arrepios de frio e costuma brindar a nossa travessa com o seu tronco nu (se usa calções ou coisa pior, não sei nem quero arriscar. Valha-nos a varanda a tapar as vergonhas).

A verdade é que, à falta de vizinhos mais simpáticos, muitas vezes dou por mim a chegar a casa e olhar para a sua varanda. Tornou-se uma espécie de acto reflexo, companhia constante, e o facto de sempre que chego ao meu quarto (frente à sua janela) baixar a persiana nenhuma hostilidade revela face à sua pessoa.

Foi assim com espanto que, há coisa de duas semanas, dei pela falta do nosso amigo. Nem ele, nem a sua carismática roupa alva, deram a cara durante alguns dias. Preocupante, no mínimo.

Já ouvi falar em pessoas que se deixam consumir pelo futebol, mas isto é demais!

sexta-feira, 25 de junho de 2004

Very late night TV

Esta batata enferrujada começa por pedir perdão pelo tempo que esteve afastada do seu habitat natural, o sofá. Mas os últimos dias têm sido consumidos pela preocupação (futebolística) e pelo medo (metafísico) de regressar para o sítio de onde todas as batatas vêm: a terra. Não é normal tanto sofrimento, não são normais tantos penalties, mas felizmente também não é normal o antigo guarda-redes do meu clube, a quem aproveito para mandar um aperto de mão e um abraço bem suados e orgulhosos da passagem às meias-finais.

( Fica para depois a teoria de que Ricardo é mais um fenómeno do Montijo, essa terra que nos deu já o Bruxo Francisco Guerreiro e ameaça disputar com o Entroncamento o estatuto de terra mais mítica de Portugal, parafraseando o meu amigo João SD )

Depois dos festejos, ontem à noite, tive dificuldade em seguir logo para a cama, e dei por mim a ver um constrangedor espectáculo televisivo, na SIC. Penso que o nome da coisa era "Fashion Model Awards", mas o formato é que importa realçar.

Dois apresentadores lideravam a desastrosa emissão. A dicotomia homem-forte/mulher-bela era desde logo ameaçada por dois pormenores: Joaquim Monchique no papel masculino e uma rapariga engraçada, cuja identidade não consegui descortinar, como sua partenaire. Nos olhos da dita senhora, uma maquilhagem tipo limpa-chaminés lançava fortes dúvidas sobre se a moça estaria, de facto, viva.

De fundo, aquela característica música de discoteca xunga, que em Portugal é possível ouvir (e impossível ignorar) em lojas como a Zara ou a Bershka. Puxa fecho, «I want your loooove - tchum, tchum, tchum», tenho de pôr a bainha para cima, «ooooh, I want it so much».

Na plateia, empoleiravam-se várias pessoas do mundo da moda (assim se explica que não conhecesse nenhuma). De vez em quando, os mais votados lá saltavam ou eram empurrados dos degraus mal amanhados da pequena sala, para receberem prémios despachados a uma velocidade estonteante.

«E agora, melhor modelo masculino, best male model...»

Musiquinha xunga non stop de fundo, discurso de agradecimento com três palavras, e passa ao próximo. Palavra de honra que nunca vi galardões entregues com tão pouco empenho e tão evidente pressa.

Neste mundo que notoriamente não é o meu, gostava apenas de lamentar que João "Pipo" Catarré não tenha levado para casa o troféu relativo a Melhor Manequim Masculino. No sentido de objecto inerte, estático, que o dicionário da Língua Portuguesa lhe atribui

"s. m.,
boneco, representando homem ou mulher"

penso que era mais que justo.

Bom fim-de-semana!...

segunda-feira, 24 de maio de 2004

Dois quilos em três horas

Quando tenho de pegar no batente às sete da manhã, ponho o despertador para as cinco e quarenta. Os primeiros minutos são de re-habituação ao mundo; só a partir das seis menos dez, seis horas é que abro verdadeiramente a pestana e enfrento a dura realidade. Isto explica, obviamente, a quantidade de nódoas negras que ornamentam as minhas canelas e resultam de encontros mais ou menos imediatos, e madrugadores, com os móveis lá de casa.

Enquanto faço horas para apanhar o 42 das seis e... 42, tento ver o tempo que vai fazer, na Internet dos pobres: o Teletexto. É fácil e, sobretudo, rápido: apenas uma vida inteira para chegar à página 525 e um purgatório no Além para ver as temperaturas que interessam. Depois de me queixar do calor/frio que vai fazer, ainda me sobram uns segundos para espreitar esse mundo que é a Teleshop.

Com a aproximação do Verão, os produtos para emagrecer dominam quase por completo essas animadas emissões. Há tempos, descobri um produto chamado "Peel Away The Pounds": composta por um set de batidos e pensos adesivos, esta é a solução para quem quer deixar de vez as lojas "Olá, Gordinhas" e passar a entrar, sem complexos, na Bershka ou mesmo na Pimkie.

Além de colar um adesivo no braço, os interessados em comprovar a eficácia do produto são convidados a tragar uns estrambólicos batidos: mostram-se imagens fabulosas de americanos a enfardar em centros comerciais, e a ficar sem fome depois de uma goladinha no líquido-mistério. Anseio por uma versão nacional da coisa, com homens de barba rija a abandonarem pratadas de tripas e cozidos à portuguesa por uma amostra de sumo com espuma.

Aquilo que me deliciou, no entanto, foi a frase de alerta que surge no final do anúncio, naquela altura em que se dão números de telefone para comprar os engodos. O "Peel Away The Pounds" não pode ser consumido por grávidas, diabéticos e doentes de Alzheimer. Imagino, doravante, os benefícios trazidos pela mistela a criaturas embrionárias, pessoal com o açúcar a bater no tecto e gente que se esquece facilmente de onde tem de ir quando quer vomitar.

Entretanto, e porque também eu tenho de começar a compensar o tempo que passo no sofá, comprei, outro dia, uma singela bicicleta de manutenção, daquelas em que se pode pedalar despreocupadamente, enquanto se repara quais os sítios da sala que acumulam mais pó, ou se percebe como a música do disco que se está a ouvir e durante a qual jurámos pedalar ininterruptamente é, afinal, mais longa do que pensávamos.



Naturalmente, e depois de alguns dias de treino, estou já a vestir o 34 e a concorrer para figurante dos Morangos com Açúcar. Aquilo para que queria chamar a atenção, no entanto, é que os benefícios do aparelho começam muito mais cedo do que seria de esperar: comprei a bicicleta mais simples, mais leve e mais barata da loja, mas quando a tiro da caixa, vejo que vem desmontada em 300 pequenas peças, que tenho de apertar porcas e parafusos à mão, e que não percebo nada do livro de instruções. Muita asneirada depois, consegui: não sem antes perceber o princípio básico da Engenharia em Portugal («Não estou a ver onde é que isto encaixa... ai, que seca! Bem, fica assim, se cair logo se vê»).

Uma das peças cuja utilidade não fui capaz de descortinar estava no fundo da caixa. Vi-a no fim de montar a bicicleta e era uma jeitosa chave de fendas/parafusos/saca-rolhas multi-usos.

Boa semana!...

sábado, 22 de maio de 2004

Voltei, voltei (mais ou menos)

... só para garantir que ainda existo (e, como tal, ainda vegeto). Os posts fervilham na minha cabeça mas não têm encontrado tempo nem condições para saltar para o écran. Assim, deixo-vos com um pequeno presente, para que se entretenham até ao meu regresso: o verdadeiro, o grande, o desconchavado SOFÁ VERDE (em look de Inverno: desde o começo da canícula, já mandei o cobertor embora, e o leitinho Mimosa deu lugar ao gelado Fruit & Fresh de frutos vermelhos).

Até breve!

sexta-feira, 16 de abril de 2004

Morangos com Açúcar - A planta da(s) casa(s)

Para ultrapassar a barreira dos três milhões de visitantes, aqui fica mais um post sobre o meu híbrido favorito (série ou novela? A polémica existe, mas não deverá impedir-nos de continuar a desfrutar deste magnífico momento diário de televisão-diversão).

A batata viu alguns episódios, esta semana, e tirou uma ou duas conclusões, sendo acompanhada, no elaborado processo de raciocínio, pela sua amiga e room mate, V. Pensemos no Ricardo, o beto alourado meio-irmão do Pipo. Vive numa espécie de pequeno open space, onde quarto, sala de estar e cozinha (indispensáveis para o free loader John aquecer as suas saladinhas) convivem no mesmo compartimento. Quando o irascível dono do apartamento se chateia com alguém que esteja lá por casa -- algo que, a bem dizer, acontece à média de três vezes por episódio -- o que faz? Abre uma portinhola, do lado esquerdo, e esgueira-se por ela adentro. Quererá ficar sozinho, para descomprimir e não ter de ouvir mais os seus enervantes companheiros do mal. Certo. Mas... que divisão é aquela? A casa-de-banho!

Concluímos assim, eu e a V., que o Ricardo ou tem uns intestinos assaz trabalhadores, ou, à falta de outro sítio para descansar, se senta na retrete à espera que a neura passe. Duches de água fria ou sessões de depilação do peito, que anda sempre à mostra, mercê daquelas camisas desabotoadas, são outras hipóteses credíveis.



Isto já para não falarmos no mistério que é a casa do moço estar sempre impecavelmente arrumada. Não sei porquê, cheira-me que o rapaz não deve ser dado às lides domésticas.

Graças à V., entretanto, vim a reparar que a porta da concorrida casa-de-banho do Ricardo é igual à da sala de jantar da professora Constança, onde habita cerca de metade do pessoal docente do Colégio da Barra. Isto explica que nunca vejamos nem o Ricardo no banheiro, nem os amiguinhos da Constança nos quartos (que eu imagino cheios de colchões no chão e beliches empoleirados uns em cima dos outros; não há espaço que comporte tanta gente).

Só mais uma: a Flor, detestável amiga arty do Rui (versão tuga do Wes Bentley em "American Beauty") começou a andar com o Rafa, que, de resto, anda com tudo o que não tenha dono. Depois de sentir ciúmes de Flor, pelo tempo passado com o namorado, Rui, Catarina sente agora ciúmes de Flor, pelos linguados trocados com Rafa.

O coração dos fãs alegra-se: irá Catarina finalmente perceber que a paixão da sua vida é o jovem radical com entradas no cabelo e fita colada à testa?

Eu penso que, tal como, há tempos, Pipo alternava entre Joana e Matilde por não conseguir distinguir as primas, Catarina não quer estar com Rui, nem com Rafa, mas sim com a bela da Flor. Só assim se explica a sua invariável má reacção à aproximação da moça a cada um dos rapazes.

A homossexualidade ainda não foi abordada no frenesim de assuntos que são os Morangos, mas acredito já ter faltado mais.

Entretanto, e à falta de uma foto da menina que anda a semear a discórdia no Bar dos Rebeldes, fica a descrição do meu batato para o seu visual: Christina Aguilera meets Ruth Marlene.

Bom fim-de-semana!...

E se de repente alguém...

Ontem, um dos muitos milhares de leitores anónimos deste sofá viu-me na rua, e, porventura enfadado com o teor lamuriento das minhas histórias e considerações, perguntou-me, do alto do seu banco de jardim:

«Ó menina! Ó menina! Não quer casar comigo?»

Acho que vou reconsiderar a minha postura perante a vida em geral, e a via pública em particular.

quinta-feira, 15 de abril de 2004

A greve, e a garra, da Carris

Como sabem todos os pobres e remediados de Lisboa, a Carris não é flor que se cheire, nem donzela em cuja fidelidade convenha acreditar. Chega tarde e a más horas, lava-se pouco, e ainda se dá ares de grande importância, anunciando a sua falta de comparência várias vezes ao mês. O pior é que, à falta de melhor, lhe sentimos a falta.

Ontem, depois de caminhar de Sete Rios ao Califa, em Benfica (dizem-me que é muito... mas garanto que se faz bem!), e cumprida a minha missão por tais terras mouras, tentei regressar a casa. Visto que a birra da Carris, desta vez, se estendia das 11h às 20h, esperei que aparecessem aquelas camionetas de turismo, conduzidas por divertidos free lancers, que nestas alturas fazem as vezes das mais populares carreiras amarelas e cor-de-laranja.

O substituto do 54 apareceu pouco tempo depois de eu chegar à paragem. Toda contente, subi as escadas, imaginei-me numa excursão por paragens longínquas e esgueirei-me para os últimos bancos da viatura. Passados poucos minutos, o primeiro sururu: cagaçal lá à frente, mas estava demasiado cansada para tentar perceber porquê. Eis senão quando o condutor, na voz mais parolo-castiça que consigam imaginar, faz uso do microfone usado nos passeios turísticos para partilhar connosco os seguintes pensamentos:

«Eu pedia aos xenhores passageiros que desimpedissem as saídas... Quer dizer, se não vão sair, para que é se põem a estorvar a porta?! Com tantos lugares que vagaram há duas ou três paragens... sinceramente, caraças!»

Adorei o assomo de franqueza, com amplificação e surround system. No final da viagem, durante a qual um rapaz se tentou repetidamente roçar em mim, e uma criança berrou que as janelas de uma casa do Príncipe Real «são iguais às do Aladino!!», saí no Cais do Sodré e apanhei o placebo do 15. Camioneta não só de turismo, como de luxo, tinha o piso inferior fechado, o que significa que os passageiros tinham de subir dois lances de escadas para alapar o cu. Lá em baixo, junto ao motorista, seguiam algumas mulheres, divertidas com as graçolas do senhor. Uma espécie de vídeo de hip-hop, portanto, com a diferença de que em vez de limusine tínhamos a camioneta, e senhoras com idade para serem mães das jovens esculturais que geralmente ornamentam esses telediscos.

No Calvário, e sem justificação aparente, o rapaz que conduzia a viatura fez, também, uso do sistema de comunicação, dizendo ao microfone, num estilo jovial e bem-disposto:

«Vá lá, eu sei que isto é chato, mas as greves dão-lhes para isto... Podia dar-lhes para pior... Aproveitem e vão todos juntinhos uns aos outros, está bem? Pronto, obrigado!»

Eu acho que há mais talento de comunicador ao volante de alguns transportes do que nas rádios que os senhores insistem em sintonizar.

Quando chegou a minha vez de abandonar o barco, perdão, a camioneta do amor, pedi ao moço que abrisse a porta, se faz favor, já que não sabia onde estava a campaínha (se é que a havia).

«Não sei se abro!», respondeu ele, rindo trocista, com a cumplicidade das groupies de serviço.

Vi que só me restava entrar na brincadeira:

«Se não quer abrir a porta na paragem, suba ali aquelas travessas e deixe-me à porta de casa, se faz favor».

«Ah, isso não, isso dá muito trabalho!», continuou ele a rir. «Mas não sei se abro, não sei se abro...»

Abriu. Mas não sem antes estender o boné que levava na cabeça e pedir: «Vá lá, dê-me lá qualquer coisinha para a ajuda».



Ainda eu me queixava dos condutores dos transportes alternativos que se limitavam a não conhecer o percurso do autocarro que lhes calhava guiar, com a indicação dos utentes, pelas ruas da cidade.


quarta-feira, 7 de abril de 2004

A relatividade da tacanhez

A minha colega de casota, M. Wee, está zangada. Ou já esteve, há coisa de semanas, e partilhava essa indignação com a Mãe, que lhe ligou a contar que, no cada vez mais inescapável "Morangos com Açúcar", se haviam dito coisas menos simpáticas sobre a terra da Família Wee, Castelo Branco.

Emigrada para a dita cidade durante alguns episódios, a fim de trabalhar na «academia de dança de um amigo», a professora Madalena foi quem gerou toda esta confusão. Ao regressar, além de atazanar a vida do setôr Nuno, explicou que não se dera bem no Interior porque Castelo Branco é «um sítio onde toda a gente fala da vida uns dos outros, um meio muito tacanho».

Aquando do anúncio da partida da ruiva, recentemente virada morena, a minha flatmate foi a primeira a admitir que, em Castelo Branco, era improvável existir uma academia de dança. «Um ginásio e já é com sorte!», riu ela, na ocasião. Mas tacanhez?

Muito coerente, numa novela rodada na verdadeira metrópole que é Cascais. Um meio em que as alunas engravidam do pai da melhor amiga e vão viver com a directora do colégio; onde professores e estudantes frequentam os mesmos bares e cafés; onde há gente que vem do estrangeiro e abanca, sem justificação nem aparente lógica, na casa de pessoal que nem vai com a sua cara; onde as personagens centrais ora não se podem ver à frente, ora, dois episódios depois, parecem ter esquecido o que ficou para trás e passam a ser companheiros para a vida.

Perante este cenário, é difícil imaginar que Castelo Branco é que seja o «meio pequeno e tacanho».

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Televisão à socapa

Estava eu ali no café a lanchar quando dei com uma converseta quotidiana-televisiva digna da grande Roda 'Mourinha' Livre.

Uma senhora de fato notoriamente quente para a Primavera que hoje despontou [urros de felicidade] fazia conversa com casal mais velhote. Pais? Veio a perceber-se que não, quando a dama do fato de fazenda fez passageira referência à senhora sua mãe. Amigos dos pais, talvez, que se ofereceram, pelos vistos, para emprestar/alugar uma casa em local «sossegado, muito calminho» para a sua interlocutora poder esticar as pernas durante as férias da Páscoa. Aposto na hipótese do empréstimo, pela familiaridade da conversa e pelo toque do «cafézinho», cuja factura todos disputaram no final. «Olha que simpáticos, deixarem-me passar lá um fim-de-semana... tenho pelo menos que ir lanchar com os velhotes uma tarde destas», terá pensado a senhora.

Mas aquilo que me leva a partilhar convosco o episódio são mesmo as recomendações do casal proprietário à turista to-be:

«Pronto, e a televisão já sabes: para veres os canais espanhóis, é mexer atrás»

A sabedoria anciã é uma coisa muito bonita, e pode beber-se, mas nunca apreender-se na íntegra, com apenas 25 primaveras e meia de vida.

Saudações solarengas!

domingo, 29 de fevereiro de 2004

E batata viu cena de... batatada

Mesmo antes de partir (alguém consegue resistir a completar com «naquela estrada... onde um dia chegaste a sorrir?»), gostava de contar mais um episódio da saga «42 - Viver e Sobreviver entre o Casalinho da Ajuda e o Casal Ventoso».

Pois é, eu não tenho culpa de o ranhoso do autocarro, e seu respectivo percurso, me darem jeito, especialmente quando tenho de me desalapar do sofá e vir trabalhar. Naquela carreira da Carris, experimentei já sensações ao alcance de poucos, como ser acusada por uma chunga em avançado estado de putrefacção de não me desviar para que ela se pudesse sentar mais à larga. Também assisti, há pouco tempo, à conversa entre um ex-segurança, irado por, no barbeiro, lhe terem cortado o cabelo de uma forma que o impedia de, posteriormente, seguir o penteado «da moda»; o seu interlocutor era um senhor de cor indistinta e com três metades de dente penduradas na boca. A sua grande preocupação, porém, era mesmo precisar de cortar o cabelo e não ter roupas suficientemente boas para, um dia que tivesse 70 mil contos, poder convencer os donos de um condomínio de luxo a venderem-lhe um apartamento.

Mas já me estou a distrair do essencial. Na passada Quinta-feira, regressava eu a casa a bordo do luxuoso veículo, quando começo a descortinar o característico som de uma zaragata. Infelizmente, estava bastante longe do epicentro da acção... mas ainda assim, consegui aperceber-me do essencial, e guardar na memória mais uns belos momentos de História.

Zangadas com uma mulher de meia-idade por esta não ceder o lugar a uma jovem com criança, duas raparigas ciganas faziam considerável cagaçal. A senhora, que até ao fim manteve o cu no assento destinado a grávidas, idosos e deficientes, alegava ser velha (ou pelo menos eu penso que era isso que ela dizia, num fio de voz abafado pelo basqueiro geral). Retorquiam as ciganas:

«Velhice não é doença!»

Na mesma voz tímida (ou medrosa?), a mulher argumentava que ter uma criança também não era doença. Lógica interessante, desmontada argutamente da seguinte forma, pela rapariga cigana:

«Não, mas sabe qual é a diferença? Se você for de pé no autocarro e cair, e morrer, não se perde nada! Ninguém se dá pela sua falta! E uma criança não é assim!»

A afirmação foi seguida de um «ôôôh» intenso, como nas sit coms gravadas ao vivo, com muita surpresa e indignação pelo meio. Não sei o que terá respondido a mulher, cujo cabelo tinha umas nuances avermelhadas, mas o passo seguinte da rapariga foi ameaçar:

«Eu parto-te a cara toda, tu queres apostar?»

levantando-se para concretizar a promessa. Agarrada pelos passageiros mais próximos, a moça quis, no entanto, mostrar que não era gaja de se ficar. A agressão concretizou-se, assim, com o que a rapariga tinha, literalmente, mais à mão: um balão da McDonalds, sacudido repetidas vezes na cara da outra.

O belo episódio ficou completo com uma discreta referência à penugem da mulher -- «Ficas com o cabelo azu-le! Tens o cabelo vermelho, mas até ficas com ele azu-le!», gritava a cigana -- e, numa altura em que os ânimos pareciam já ter serenado, a bela despedida:

«Hei de fazer uma reza... vais morrer cedo!»

E com isto me dou por contente por, na única vez que uma cigana me leu a sina, me ter garantido, apenas, que eu nunca iria ter dinheiro.

Até amanhã!

Batata faz publicidade

Quando está afastada do sofá roto, mas não cor-de-rosa, que tem lá em casa, esta batata gosta de escrever, noutros suportes que não o digital. E como também gosta de partilhar (e como está nas lonas), gostava de convidar os cinco leitores e meio (tem havido um crescimento exponencial de visitas) deste blog a (tentar) adquirir uma bela publicação, misto de fanzine e carolice, chamada "Indies & Cowboys". Já vai no sétimo número e tem letras, musiquetas e bonecos na dose certa. Podem encontrá-la nas livrarias Tema (Colombo e Restauradores), Assírio e Alvim (Cinema King) e Barata (Avenida de Roma), bem como na Kingsize e na JoJos, no Porto. São só dois euros.

Eis a capa da última edição:



Obrigada e desculpem lá qualquer coisinha. A emissão prossegue dentro de momentos.

Sofá de todas as cores

Agradecendo os comentários elogiosos dos benfeitores que não só não me criticam pelo tempo passado no sofá, como até (lhe) acham alguma piada, regresso hoje, num Domingo de trabalho, aqui ao cantinho esverdeado.

De outras cores se pintam os programas da manhã das nossas televisões. Já vos tinha falado no fantástico pivot de exteriores da RTP, a quem a Praça da Alegria, não sei se por ausência do Jorge Gabriel, abriu as portas do estúdio, esta semana. As minhas atenções dirigem-se assim, e desta feita, para o "SIC 10 Horas", apresentado pela Fátima Lopes (que outro dia apresentava, também, num sonho que tive, um programa sobre violência doméstica. Mas isso agora não interessa -- mesmo -- nada).

No dito "SIC 10 Horas" (adoro a subtileza do lembrete... não começa nem às 9h, nem às 11h! É mesmo às 10h!), flutua uma rubrica que dá pelo elucidativo nome de "Tertúlia Cor-de-Rosa". Para lhe dar corpo, há um ror de convidados fixos que se alapam frente às câmaras, de microfone na mão e cérebros a mil, para comentar a vida dos outros: mas com a desculpa de, no fundo, não estarem a falar da vida dos outros, mas sim do tratamento que é dado pelas revistas (inevitavelmente cor-de-rosa) a essas mesmas existências, famosas e mediáticas.

Ainda há quem diga que se perdeu o espírito das conversas de café, dos planos intelectuais que se traçavam nos grandiosos salões de chá que, para alegria dos meus olhos e gostos arcaizantes, se continuam a encontrar um pouco por todo o país. Hoje, podem não se orquestrar revoluções nem discutir obras literárias enquanto se «psst-chama» o empregado, mas leva-se o conceito mais além. Na televisão, discute-se a forma como os outros falam de terceiros. Faz lembrar as clássicas caixinhas de fermento royal e sua permanente fuga para o infinito.



Na semana que passou, decidi atentar com mais apuro na tal tertúlia de cor rota. Este é, justamente, o tipo de programa que convém ver mais de uma vez, para nos certificarmos que a coisa existe mesmo, não resultando portanto de um delírio matinal, provocado pela remela que o duche ainda não levou.

Em fila desordenada sentavam-se os comentadores convidados, à excepção de Marta Cruz, de férias em Cabo Verde com a mãe, Marluce. E nada melhor que começar a tertúlia daquela manhã exactamente cortando na casaca da jovem modelo! Ou, para ser mais rigorosa e politicamente correcta, na forma como as revistas de sociedade e televisão falam da menina, atribuindo-lhe paixões que não passam de amizades, ou «climas naturais, entre dois jovens bonitos». E, o que é pior!, bradam as sumidades da imprensa, dando informações contraditórias, em cada uma das publicações.

Conhecendo a lógica (?) que subjaz (??) às revistas que inundam prateleiras de supermercados e estações de serviços de há uns anos para cá, e não sendo propriamente defensora do pardieiro de vidas pessoais e inanidades que enche as capas das ditas, não posso senão achar hilariante que exista um programa para comentar, e criticar, as notícias que as mesmas trazem à estampa.

É curioso que aqueles analistas tanto se indignem com a falta de rigor da informação divulgada, ou com a atenção dada «aos romances» das estrelas, apelando a que se fale mais do seu desempenho profissional... quando a sua própria aparição no "SIC 10 Horas" depende das revistas zurzidas.

Faz-me pensar num abutre a lamentar a quantidade de gente que se perdeu no deserto e a cujas carcaças teve de dar um gastronómico destino.

O que vale é que, mesmo que o "SIC 10 Horas" não tivesse dado à luz a "Tertúlia Cor-de-Rosa", comentadores da estirpe da modelo Raquel Broegas (*) ou do cabeleireiro Eduardo Beauté (quem?) teriam, graças aos seus reconhecidos méritos, lugar garantido em qualquer programa de grande audiência.

(*) Também não sei quem é, mas, surpreendentemente, o tema que mais a fascinou, naquela manhã, foram os múltiplos namorados da Marisa Cruz, num espaço de poucos meses. «Eu começo a pensar que se trata apenas de uma manobra de marketing», vaticinou a parte completamente desinteressada.







sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

Sofá Gold

Esta batata tem andado aos caídos, com tanto trabalho. Nem tempo para espreitar as vistas do sofá arranja... mas como não quer ter a barraca digital às moscas, lembrou-se de inaugurar uma nova rubrica. Apresento-vos, pois, o Sofá Gold, um espaço dedicado às nossas melhores/piores memórias televisivas. Quando não houver matéria-prima mais fresca, vai-se ao congelador e pesca-se meia dúzia de petiscos, em bom estado de conservação, mas a precisar de arejar.

Na minha última visita ao Norte, tive a oportunidade de passar mais de meia hora num autocarro da STCP, a empresa que transporta o povo do Porto e arredores. Para chegar da Invicta a Santo Ovídio, não só demorei quase uma hora, como me contorci de riso, graças a uma dupla de mulheres, piores que os velhotes dos Marretas, com um discurso imparável e mais divertido do que alguma vez elas terão pensado. Já aqui tinha falado nesta teoria, mas cada vez se me afigura como mais verdadeira a ideia de que o humor é tanto melhor, quanto mais involuntária é a sua criação. Adiante.

A converseta das senhoras fez-me lembrar a brilhante intervenção, há coisa de dois (?) anos, de uma utente da mesmíssima empresa, no telejornal da RTP. Tinha havido uma colisão entre dois autocarros, na baixa do Porto; assustados, alguns passageiros contavam à televisão como acontecera o acidente, se tinham sofrido ferimentos... o habitual. Eis senão quando chegam os cinco segundos de fama de uma mulher, que se havia escapulido do veículo pela porta do meio do autocarro (são aquelas viaturas bem compridonas, com três portas, em vez de duas).

«E os autocarros bateram, e eu saí pela porta do meio...», contava, um pouco exaltada, a senhora.

Quer então o repórter saber como se processara a chegada da polícia, ou das ambulâncias, ao local do acidente. Responde a entrevistada, no mesmo tom high pitched, mas sem perder a naturalidade:

«Bem, isso não sei, porque ao sair do carro escorreguei nas folhas e nessa altura já estava na valeta!»



Isto pode não ter muita piada agora (digo eu, a lutar contra o riso, no local de trabalho), mas na altura deixou o Sofá Verde e suas habitantes em delírio. Curiosamente, poucos dias depois, esta batata partilhou umas boas gargalhadas com a sua irmã, aquela trocada à nascença, de quem falei no thread sobre o "Quem Quer Ser Milionário".

Falava-se, na TVI, de um padre milagreiro que, entre outras boas acções, devolvera, numa qualquer aldeola portuguesa, o dom da fala a uma senhora que, durante anos a fio, nada dissera. Naturalmente, a mulher nutria pelo pároco (nunca mais me esquece que tinha o nome da melhor voz da TV portuguesa) uma forte devoção. Dizia ela que só os préstimos do senhor (Senhor?) lhe tinham dado de volta a voz, depois de anos de curas e tratamentos sortidos. Pergunta-lhe a jornalista, provavelmente a título de curiosidade, qual a primeira palavra pronunciada, após tanto ano de silêncio.


(Pensem no vosso caso... diziam o nome do vosso batato? Um "aleluia!" sonoro e apropriado? Uma impaciente caralhada tipo "até q'enfim, foda-se!"?)

Agora imaginem a cara sorridente da amilagrada, a arreganhar a tacha e revelar a primeira palavra depois do jejum:

«Foi 'lixívia'!!!»

Bom fim-de-semana!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2004

Avanços da Medicina, em versão recauchutada

A batata às vezes testa as histórias em amigos. Se eles não gostam, volta para o saco guardado debaixo do guarda-louças. Se se riem, atreve-se a saltar para a frigideira e partilhar os salpicos do óleo com quem de direito. A narrativa que se segue é por demais conhecida de muitos que a irão (?) ler, mas não resisto a passá-la para um registo mais palpável e abrangente que a conversa à mesa do café.

Nessa verdadeira instituição que é o Jornal da TVI, onde os pivots se referem às crianças como «miúdos» e aos idosos como «velhotes», uma notícia verdadeiramente insólita teve honras de destaque na edição de Sábado. Uma senhora, dos seus 50 e tal anos, queixava-se de ter ido na cantiga de um falso médico, que lhe entrou pela casa dentro, oferecendo-se para lhe fazer um rastreio gratuito ao cancro da mama. Nesta, mesmo eu, que sou lorpa com carteira profissional, era incapaz de cair. Mas a pobre mulher abriu a porta de sua casa, e os botões da blusa também, deixando que o charlatão de modos elegantes lhe apalpasse as mamas (será que esta história passava na TV americana? Com o escândalo da Janet Jackson, andam todos muitos sensíveis...). Encantado com a saúde da senhora, o homem terá mesmo dito que a "paciente" tinha «uns mamilos muito bonitos para a sua idade», frase que, quanto a mim, lhe permite entrada directa para o panteão dos criminosos mais divertidos dos nossos tempos.

Só quando o prestável doutor regressou ao local do crime, oferecendo-se para um segundo exame, é que a mulher, e o seu marido, desconfiaram. O homem fugiu, quando o cônjuge enfurecido tentou anotar a matrícula da sua viatura. A polícia diz nada poder fazer, já que a senhora permitiu a entrada em sua casa do trafulha. A minha parte favorita, no entanto, foi a confissão da lesada às câmaras da TVI (em horário nobre, recorde-se):

«O meu marido ficou muito mal. Até me disse: 'Ó mulher, tu não contes isto a ninguém!'»

Passem a palavra: rastreio sim, mas nem por satélite nem ao domicílio.



Sofá com a lágrima ao canto do forro

É um privilégio poder escrever apreciações inanes sobre programas palermas e receber palavras de incentivo à conta das mesmas. Agradeço-vos a fidelidade e os comentários mai-recentes, e vou fingir que não sei que só chegaram aqui porque passam a vida a pesquisar, no Google, por Morangos com Açúcar, Anjos e afins.

Depois da provocação amigável do dia, alguns considerandos. Quer-me parecer que há quem tome este cantinho como espaço de devoção exclusiva à bidiária novela da TVI. Ora, por muito que goste da fauna do Colégio da Barra, dificilmente a paixão é monogâmica, e há outros assuntos a debater neste blog. Neste momento, como não me ocorre mais nenhum, vou voltar a falar do digno sucessor dos "Riscos", como bem lembrou o Marcos, em comentário abaixo.

Recentemente, as revistas da especialidade noticiaram uma viagem romântica, nas férias da Páscoa, de Pipo e Matilde, rumo à Serra Nevada. Haja dinheiro! Quando a batata andava no Liceu ia, quanto muito, para as esplanadas das praias de Gaia, se em Abril já fizesse sol. Mas adiante. Chegado à estância de neve, o casal passa uns belos dias de romance, até que uma perseguição, movida pela implacavelmente enjoada Joana

( a do meio: )

faz uma baixa. A Matilde, aka sporty strawberry, irmã da Lúcia Moniz e prima da Joana, vai pela ravina abaixo, passa a noite no hospital, toda escangalhadinha, e dá a Pipo a oportunidade ideal de voltar para os braços da sua ex. Repare-se como, a imagens idílicas de uma grande paixão entre o primata e Matilde, se segue um acidente aparatoso e um rápido regresso à relação anterior.

Na minha opinião, não se trata de desapego ou falta de fidelidade, por parte do protagonista da série. Simplesmente, Pipo, autor de notáveis cálculos mentais (outro dia, ao balcão, concluiu que cinco euros mais cinco euros são dez euros), tem as suas limitações, e não fez mais que confundir as primas. Vamos lá a ver o que acontece quando Matilde recuperar a forma.

domingo, 1 de fevereiro de 2004

O Sofá Verde começa por pedir desculpa pela longa ausência. Curiosamente, esta batata tem estado tudo menos sentada, a ver os bonecos a passar -- o começo de ano tem sido animado, ainda que pouco animador, e as coisas que a televisão tem escolhido para passar dão(-me) mais vontade de chorar do que de rir, e aqui partilhar essas gargalhadas.

Esta batata arrepiou-se até ao último tubérculo com as imagens, faz hoje uma semana, da queda de um futebolista de um clube que não é o seu, mas que, naquele momento, a fez tremer como se de um amigo de longa data se tratasse. Achei bonita, se bem que estranha, a solidariedade unânime causada pelo seu súbito desaparecimento, e andei uns dias a pensar nisto. Ontem, quando me acordaram para dizer o que o treinador de outro clube (que também não é o meu) diz-que-disse sobre um jogador de ainda outra equipa (que, juro que não estou a gozar, também não é minha), concluí que o luto devia ter sido levantado. E de cabeça pouco erguida, porque antes a dignidade sóbria de antes que a palhaçada circense de hoje, lá me arrastei de volta ao Sofá.

Com pouco para contar, mas algumas coisas a merecer um alerta máximo: no "Morangos com Açúcar", esse anti-depressivo que a TVI agora me serve em dose dupla, personagem completamente maléficas deram à costa do Colégio da Barra. Ao aprendiz de Sapinho junta-se agora a filha perdida da Professora Constança (Samarinha, estou contigo! Tantos "oh querida" também me põem a cabeça em água...), uma miúda abandonada à nascença, e quase dá perceber porquê. A gaja tem o condão de ser mais irritante que metade das outras personagens juntas, ou que a mania de o filho da Helena Isabel ajeitar os óculos com as palmas das mãos abertas. Está sempre enjoada, viveu nos EUA mas não tem sotaque, aparte um ocasional e mal esgalhado «OK, you know...» e abre-me o apetite para a cacetada. Fez, no entanto, a boa acção de mandar o Ricardo (beto mais acalorado da história) dar um mergulho num lagueco qualquer, disseram-me ontem. Se não soubesse que os dois hão-de acabar juntos, a carpir maldade pelos cantos de uma qualquer escola profissional, não lhe(s) tinha metade do pó actual.

Mas porque se faz tarde, e não quero que vos falte nada, o mais importante aviso é: hoje (1 de Fevereiro), os Anjos vão actuar no Colégio da Barra! E foi a própria (barra -- trocadilho foleiro, mas saiu-me) que o anunciou: numa tentativa de salvar a escola da perdição (o Sapinho fez publicar uma notícia na qual se diz, e com propriedade, que o colégio tem uma directora ex-tocicodependente, um professor tarado, outro assassino, e um aluno de passado criminoso), o Rafa arranjou um espectáculo... para angariar dinheiro... e quem melhor para agradar à chavalada de uma escola secundária de Cascais que os Anjos?

Olé, TVI e reciclagem de artistas em novelas, Olé!

Prometo um regresso, em breve, e em melhor forma. Até lá... Vão imaginando gente como esta:



a ouvir isto:

Tempos idos

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